29.04.09 - BRASIL
Brasil - A luta indígena é contra extinção da humanidade
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Brasil de Fato *

Adital -  Danilo Dara - da Redação


O historiador indígena Edson Brito, também conhecido como Edson "Kayapó", está a todo momento pensando na humanidade e na natureza como um Todo. Sabe que o tempo corre contra ele e seus parentes. E tem convicção também que esse tempo, "civilizatório científico-capitalista", corre contra todos os humanos. Para ele a atual crise econômica é agravante de um colapso civilizatório muito maior, que tem longas raízes históricas, científicas e filosóficas. Trata-se, portanto, de uma grave crise produzida por um modo de vida que destruiu e destrói muitas outras formas de viver, muitos outros modos de relacionamento entre humanos e natureza.

Verdadeiros viveres cuja luta pela sobrevivência mobiliza por inteiro o índio guerreiro que traz em seu nome, Kayapó. Contra um modo de viver "estúpido e suicida": "veja só São Paulo: quando explico para meus filhos que o Tietê é um rio eles não acreditam: como pode ser se fede tanto? A vida parece não fazer mais sentido, e as pessoas esperam a hora dela acabar, muitas já não pensam mais sequer em ter os seus filhos". Contra esta barbárie, o historiador indígena traça sua resistência, marcada principalmente por muito estudo: "meu objetivo é desmascarar toda essa concepção científica e civilizatória, mano! Só preciso ir juntando os muitos fios, as muitas informações que tenho". E é esta urgência que vive cotidianamente seja em São Paulo (onde hoje faz seu doutorado em "Educação: história, política e sociedade" na PUC-SP), seja no Oiapoque (onde nasceu e também segue atuando).

 

O mote inicial de nossa conversa foi a recente votação no Supremo Tribunal Federal sobre a demarcação contínua do Território Indígena Raposa Serra do Sol (TI-RSS), na região de Roraima, extremo norte do país. Porém, desde o início Edson fez questão de ressaltar implicações muito mais profundas a partir desta questão aparentemente só indígena: "nós indígenas passamos milênios na Amazônia e conseguimos conhecê-la profundamente, respeitá-la e preservá-la, enquanto a civilização científica capitalista, além de massacrar brutalmente nosso povo, em poucos anos a tem desmatado e destruído progressivamente, como nunca antes". Para ele há muito tempo a questão indígena deixou de ser uma luta específica dos povos originários pelos seus direitos constitucionais para se tornar uma questão de todos os homens e mulheres do planeta. Prova isso com muitos dados e exemplos.

Em sua opinião, ou a "civilização científica capitalista tem pela primeira vez na história a humildade de assumir seus limites e sua ignorância" sobre uma série de complexas questões - entre elas, a preservação da Amazônia, e a própria relação entre humanos e natureza -, ou estaremos todos fadados à extinção. Nesse sentido é enfático: "o nó da questão, que a sociedade brasileira e mundial precisam entender, é que as terras amazônicas sob o cuidado dos indígenas é uma garantia para toda humanidade. Ao retirar a autonomia dos indígenas sobre suas terras estão assinando a sentença de morte da humanidade". O alerta aqui tem em vista as 19 condicionantes propostas pelo Ministro Menezes Direito e aprovadas junto com a demarcação contínua da RSS, que teoricamente se estenderia a outras terras já demarcadas ou por demarcar. Na opinião de Edson: "um verdadeiro golpe, inconstitucional, contra a autonomia indígena e de lesa-humanidade".

Continua: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=38462   Em 01.05.2009

Professor da UFRGS é condenado por racismo

Docente foi acusado de usar termos pejorativos em aula

CÍNTIA ACAYABA
DA AGÊNCIA FOLHA

Um professor da faculdade de agronomia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) foi condenado pelo TRF (Tribunal Regional Federal) da 4ª Região a pagar multa por ato de racismo em sala de aula em 2000. Cabe recurso.
A multa corresponde ao salário de um mês do professor José Antônio Costa, incluindo vantagens e adicionais que recebia na época. A Justiça Federal não cita o valor na decisão.
A denúncia do Ministério Público afirma que o professor disse, no primeiro dia de aula da disciplina "Leguminosas de Grãos Alimentícios", em março de 2000, que "os negrinhos da favela só tinham os dentes brancos porque a água que bebiam possuía flúor" e que "soja é que nem negro, uma vez que nasce é difícil de matar". Na classe, havia um aluno negro.
Na época, foi aberta uma sindicância na faculdade. A apuração concluiu que não havia conotação racista nas falas do professor, que ele tinha "intuito de criar um ambiente mais descontraído no primeiro dia de aula" e que fez uso de expressões informais sobre a raça negra utilizadas no meio rural.
O Ministério Público, então, entrou com ação civil na 6ª Vara Federal de Porto Alegre, que a considerou improcedente. Depois, recorreu ao TRF alegando que "houve ação discriminatória e racista e que teria provocado constrangimento e indignação em todos os presentes e principalmente no único aluno negro presente".
A defesa de Costa afirmou, entre outras coisas, que ele disse as frases sem intenção pejorativa e que utilizou ditado comum na zona rural, principalmente entre agricultores de origem italiana, inclusive com conteúdo positivo, relativo ao vigor da etnia negra.
O juiz federal Roger Rios, da 3ª turma do TRF da 4ª região, relator do processo, considerou que "não é crível que indivíduo com o grau de formação intelectual [mestrado e doutorado] [...] não perceba o explícito e textual conteúdo racista na expressão utilizada -tanto que ao final da aula preocupou-se em manifestar suas desculpas".
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0105200919.htm em 01.05.2009

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

O nome da gripe é Smithfield Foods

É a doença originada do agronegócio internacional

Eu sempre insisto aqui neste blog Diário Gauche que o nome que se dá a coisas, objetos, projetos, episódios e até a doenças é muito importante.

Vejam o caso dessa epidemia mundial de gripe viral. Estão chamando-a – de forma imprópria – de gripe suína. Nada mais ideológico. Nada mais acobertador da verdade.

O vírus dessa gripe se originou da combinação de múltiplos pedaços de ADN humanos, aviários e suínos. O resultado é um vírus oportunista que acomete animais imunodeprimidos, preferencialmente porcos criados comercialmente em situações inadequadas, não-naturais, intensivas, massivas, fruto de cruzamentos clonados e que se alimentam de rações de origem transgênica, vítimas de cargas extraordinárias de antibióticos, drogas do crescimento e bombas químicas visando a precocidade e o anabolismo animal.

Especulações científicas indicam que o vírus dessa gripe teve origem nas Granjas Carroll, no Estado mexicano de Vera Cruz. A granja de suínos pertence ao poderoso grupo norte-americano Smithfield Foods, cuja sede mundial fica no Estado de Virgínia (EUA).

A Smithfield Foods detém as marcas de alimentos industriais como Butterball, Farmland, John Morrell, Armour (que já teve frigorífico no RS e na Argentina), e Patrick Cudahy. Trata-se da maior empresa de clonagem e criação de suínos do mundo, com filiais em toda a América do Norte, na Europa e China.

Deste jeito, pode-se ver que não é possível continuar chamando a gripe de “suína”, pois trata-se de um vírus oportunista que apenas valeu-se de condições biológicas ótimas – propiciadas pela grande indústria de fármacos, de engenharia biogenética, dos oligopólios de alimentos e seus satélites de grãos e sementes. Todos esses setores contribuiram com uma parcela para criar essa pandemia mundial de gripe viral.

O nome da gripe, portanto, não é “suína”. O nome da gripe é: “gripe do agronegócio internacional” – que precisa responder judicialmente o quanto antes – urgentemente – pela sua ganância e irresponsabilidade com a saúde pública mundial.
DE RACISMO E DE NOVAS TERRITORIALIDADES NO SISTEMA MUNDO

De racismo e de novas territorialidades no sistema mundo

O racismo é um dos temas mais entranhados na sociedade moderna e, por isso, um dos mais difíceis de serem tratados com um mínimo de civilidade.

O racismo é um dos temas mais entranhados na sociedade moderna e, por isso, um dos mais difíceis de serem tratados com um mínimo de civilidade.
 24/04/2009

Carlos Walter Porto Gonçalves

 

Em 2001, a ONU realizou em Durban, África do Sul, a Conferência Mundial Contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. O local não podia ser mais apropriado, pois aquele país acabava de por fim ao nefando regime de apartheid que lhe havia sido imposto pelos colonizadores. A conferência, infelizmente, terminou com cadeiras voando e sem que os participantes tenham conseguido dar cabo da sua agenda de trabalho. À época, preocupava aos delegados europeus a possibilidade de que fosse aprovada uma resolução que reconhecia a escravidão como crime de lesa-humanidade e, ainda, que pudesse haver alguma condenação a Israel por crime de racismo contra o povo palestino. Em 2009, nos vemos em Bruxelas novamente diante do triste espetáculo de uma reunião da ONU sobre racismo não conseguir dar cabo da sua agenda de debates. Embora a mídia empresarial tenha enfatizado o discurso do Presidente do Irã como tendo sido o responsável pelos desentendimentos, é bom registrar que mesmo antes de qualquer pronunciamento já estava em curso um boicote à conferência protagonizado pelos Estados Unidos, Itália, Alemanha, Holanda, Polônia, Austrália e Nova Zelândia que não enviaram sequer seus embaixadores a Bruxelas.

Independentemente das razões imediatas alegadas por esses representantes de que recusariam o reconhecimento do sionismo como racismo, o que estaria sendo proposto pelo Presidente do Irã, é significativo que seja exatamente sobre o tema do racismo que os embaixadores, especialistas em evitar a guerra, não consigam sequer conversar quando não evitar a pancadaria aberta, como aconteceu em Durban.

 

O racismo é um dos temas mais entranhados na sociedade moderna e, por isso, um dos mais difíceis de serem tratados com um mínimo de civilidade. As reuniões da ONU comprovam. O racismo está na constituição do sistema mundo desde seus primórdios e continua a constituí-lo ainda hoje. Na América Latina/Abya Yala, no Caribe e na África, não há como deixar de reconhecer o recobrimento entre o processo de formação das classes sociais e a questão étnico-racial. Dois dos mais importantes sociólogos latino-americanos, o peruano Aníbal Quijano e o brasileiro Florestan Fernandes, insistiram nessa sobreposição. Faz parte da colonialidade que constitui a modernidade sendo seu lado até recentemente silenciado. Desde 1492 que a colonização do novo (para os europeus) continente se fez contra os povos originários de Abya Yala, nome com que o movimento desses povos vem designando o continente afirmado como América pela elite criolla, e por meio da escravização de povos africanos nas monoculturas com fins mercantis. Foi nesse momento que os europeus se descobriram como brancos e instauraram um dos mais perversos regimes sociais que a humanidade conheceu, promovendo a morte generalizada de milhões de autóctones tanto na África, como no Caribe e na América/Abya Yala para concentrar riqueza nas mãos de poucos, sobretudo na Europa. A Europa só passou a ter a centralidade geopolítica, geocultural e geoeconômica que hoje possui a partir desse regime social colonial-escravista. Não esqueçamos que até 1492 tomar o rumo certo era se orientar, enfim, ir para o Oriente.  Condenar o passado mantendo intactas as posições atuais que por meio dele foram edificadas é contribuir para a manutenção do problema e não para sua solução. È fato que não podemos mudar o passado, como se costuma dizer, mas o que não podemos olvidar é que as desiguais posições de poder atuais foram construídas por essa história que, assim, nos habita na sua contradição.

 

Foram os próprios europeus que conformaram o holocausto cometendo com requintes técnicos e científicos a morte de milhões de judeus e de ciganos, entre outros povos, nos seus campos de concentração. O horror vivido pelos povos originários de Abya Yala/América e dos negros obrigados a trabalhar sob o látego do feitor depois de viajar nos navios do horror enriqueceram uma burguesia que só quer olhar prá frente porque não pode olhar o passado que lhe constituiu e que se reproduz enquanto pilhagem dos recursos naturais ainda hoje pagando salários de fome, sobretudo aos não-brancos.

 

O último período da globalização iniciada em 1492, o técnico-científico-informacional (Milton Santos) e neoliberal, ao contrário da homogeneização que de certa forma era seu ideal-tipo tem que aceitar a diversidade de culturas de fato como resultado da resistência dos diferentes à nova colonização, agora em nome do desenvolvimento e do mercado. As migrações acabaram colorindo as periferias de Londres, de Paris, Amsterdã e de Berlin e, assim, aproximaram os diferentes lá mesmo no centro do poder mundial, fenômeno nada novo para quem viveu no lado colonial do sistema mundo moderno-colonial. Há uma resistência xenófoba à transculturalidade e à transterritorialidade em curso no mundo que explicita uma questão de fundo do sistema mundo moderno-colonial e que as reuniões da ONU expressam esse mal-estar. Não será com muros que se vai impedir a invenção de novas territorialidades de que o mundo está grávido. Os equatorianos acusados de indocumentados na Espanha brandiram a carta de Cristóvão Colombo como seu documento de identidade para que pudessem continuar vivendo de seu trabalho na Espanha e, ao mesmo tempo, contribuir para o sustento de suas famílias no Equador. Essa Espanha, que hoje quer expulsá-los, é a mesma que se enriqueceu com exploração das minas de ouro submetendo os quéchuas e os aymaras no seu próprio Tawantinsuyu.

 

Ainda recentemente, em 16 de Março de 2003, houve uma reunião de cúpula nas Ilhas Açores onde participaram os Estados Unidos, a Inglaterra, a Espanha e Portugal quando se decidiu, à revelia da ONU, pela invasão do Iraque. Tanto o local como seus participantes são emblemáticos para entendermos o significado do que está implicado no sistema mundo moderno-colonial: os Açores são o arquipélago que se tomou como referência para demarcar o Meridiano de Tordesilhas justo no momento em que o Atlântico Norte passava a se constituir no centro geopolítico do sistema mundo moderno-colonial e, ali estavam na reunião de 2003 os que hegemonizaram a primeira moderno-colonialidade – Portugal e Espanha – e, ainda, os que passaram a comandar a segunda moderno-colonialidade – a Inglaterra – e seu desdobramento hegemônico atual, os Estados Unidos. Nunca a geografia e a história foram tão emblemáticas do padrão de poder mundial como nesse encontro dos Açores.

 

Enfim, vivemos um momento de bifurcação histórica, diria Yllia Prigogine. Há um processo de transformação em que a longa duração, de que tanto nos alertara Fernand Braudel, está se condensando na curta duração pela ação de velhos/atuais protagonistas agora visibilizados no novo quadro histórico que demanda por radicalização democrática. Que a dor dos povos originários de Abya Yala/América, dos negros desterritorializados e escravizados, dos judeus e ciganos confinados em campos de concentração e dos palestinos, hoje massacrados por Israel, nos inspirem na conformação de novas instituições, onde a igualdade e a diferença se combinem no sentido da emancipação das condições de exploração/opressão do sistema mundo moderno-colonial que ainda nos constitui.


*Doutor em Geografia pela UFRJ. Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFF. Pesquisador do Grupo Hegemonia e Emancipações de Clacso. Ganhador do Prêmio Casa de las Américas 2008 de Literatura Brasileira

Fonte: http://www3.brasildefato.com.br/v01/agencia/de-racismo-e-de-novas-territorialidades-no-sistema-mundo   em 29.04.2009

27/04/2009 - 12h04
Sabedoria indígena contra a mudança climática

Por Stephen Leahy*

http://www.envolverde.com.br/fotos/58391.jpgAnchorage, 27 de abril (Terramérica) - Enquanto os países industrializados emitem crescentes volumes de gases causadores do efeito estufa, os povos originários precisam adaptar-se a um clima cada vez mais perigoso para sobreviver. Ao longo da história, as comunidades indígenas desenvolveram um grande arsenal de práticas que hoje poderiam servir para lidar com a mudança climática. “Por que não dar um dia de descanso aos automóveis e aos aviões? E depois dois dias de descanso. Isso reduziria a poluição”, sugeriu Carrie Dann, uma anciã da etnia norte-americana dos shoshones ocidentais.

Dann, ganhadora do Ritght Livelihood Award 1993 – conhecido como o Prêmio Nobel Alternativo – por seu ativismo na proteção de suas terras ancestrais, fez a proposta perante cerca de 400 delegados reunidos entre os dias 20 e 24 deste mês na Cúpula Mundial dos Povos Indígenas sobre Mudança Climática, realizada em Anchorage, no Estado norte-americano do Alasca. Dann afirmou que é preciso curar a “febre” da Mãe Natureza. “Meu território está ficando muito quente e há muitos incêndios nas pradarias”, afirmou.

Na Austrália, para prevenir incêndios semelhantes, que nos últimos anos devastaram grandes áreas e deixaram centenas de mortos, os aborígines de Western Arnhem Land, no Território do Norte, praticam queimadas tradicionais controladas. Ao impedir esses enormes incêndios também são reduzidas as emissões de gases de efeito estufa. E, pela primeira vez no mundo, esses aborígines venderam créditos de carbono à indústria, por US$ 17 milhões, gerando uma renda significativa para suas comunidades, segundo um informe apresentado em Anchorage.

Seguindo a tradição, depois da temporada chuvosa, os indígenas australianos fazem queimadas controladas para criar barreiras que depois, na estação seca, agem como corta-fogo dos incêndios florestais. Os incêndios controlados geram uma grande quantidade das emissões de carbono da Austrália. Nos últimos anos, pouquíssimos aborígines puderam continuar vivendo na terra ou fazendo queimadas controladas. Agora, poderiam assumir um novo papel no combate à mudança climática.

“O mundo tem de prestar mais atenção às opiniões das comunidades indígenas e à sabedoria do conhecimento ancestral”, afirmou Sam Johnston, da Universidade das Nações Unidas, copatrocinadora da Cúpula. Na Ásia, os povos originários desenvolveram diferentes variedades agrícolas e utilizam distintos modelos de semeadura, disse na conferência Victoria Tauli-Corpuz. presidente do Fórum Permanente para as Questões Indígenas da Organização das Nações Unidas. Também participam da agrossilvicultura sustentável, da geração energética com biomassa e de pequenas centrais hidrelétricas.

Na ilha de Bali, na Indonésia, os indígenas reabilitam arrecifes e protegem mangues. Nas Filipinas, a população autóctone traça mapas das águas de suas terras e desenvolve um plano de manejo integrado. “Muitos fazem estas coisas por conta própria, sem nenhum apoio”, destacou Tauli-Corpuz. Em Honduras, sob a freqüente ação de furacões, a etnia quezungal desenvolveu um método agrícola para plantar sob as árvores, o que permite que as raízes se prendam melhor ao solo e também reduz a perda de cultivos em desastres naturais.

Na Guiana, os povos indígenas adotaram um estilo de vida nômade, mudando para regiões com mais florestas na estação seca, e agora plantam mandioca (Manihot esculenta), seu principal alimento, em planícies aluviais que antes eram consideradas muito úmidas para cultivos. Em Belize, os agricultores estão retomando práticas tradicionais e se mudando para terrenos mais elevados, informaram outros delegados.

Na África, os pigmeus baka, do sudeste de Camarões, e os bambendzele, da República do Congo, desenvolveram novos métodos de caça e pesca, adaptando-se a uma realidade com menos chuvas e mais incêndios florestais. Embora os povos originários tenham uma grande capacidade de adequação e existam tratados e leis internacionais que garantem seu direito ao alimento e às suas formas de vida tradicionais, a mudança climática ameaça tudo isto, disse Andréa Carmen, da etnia yaqui, dos Estados Unidos.

Quando os chefes das tribos da província canadense de Alberta declararam que era preciso acabar com a exploração das areias petrolíferas, foram ignorados, ressaltou Carmen, que é diretora-executiva do Conselho Internacional de Tratados Indígenas, uma organização de defesa dos direitos indígenas. A extração de petróleo das areias alcatroadas é a principal razão pela qual o Canadá aumentou em 4% suas emissões que contribuem com a mudança climática, entre 2006 e 2007, estando 33,8% acima do compromisso de redução de emissões que assumiu por ser parte do Protocolo de Kyoto, em vigor desde 2005.

Entretanto, os povos indígenas também observam com cautela ações de governos e indústrias em resposta à mudança climática, como a construção de fazendas eólicas e usinas de biocombustíveis, normalmente em terras ou lugares onde os afetam, prejudicando seu sustento, explicou Gunn-Britt Retter, do Conselho Saami, da Finlândia. “Contamos com os conhecimentos tradicionais para suportar estas mudanças climáticas, e precisamos usá-los para ajudar outras culturas” a fazerem o mesmo, afirmou. Os povos indígenas “devem participar plena e efetivamente dos planos nacionais e internacionais para que nossas culturas sobrevivam a estas mudanças”, acrescentou.

Já se passaram 17 anos desde a primeira reunião da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, destacou Sheila Watt-Cloutier, ex-presidente do Conselho Circumpolar Inuit. “Precisamos agir rapidamente. Esta é a última oportunidade de assumir o controle”, disse aos delegados em videoconferência, de sua casa em Iqaluit, na província canadense de Nunavut. “O mundo necessita da sabedoria de nossas culturas”, concluiu.

* O autor é correspondente da IPS. Sua viagem ao Alasca foi financiada pela Universidade das Nações Unidas e pelo Project Word, uma organização não-governamental com sede nos Estados Unidos, que incentiva a cobertura jornalística dos assuntos indígenas.

Crédito da imagem: Gentileza da entrevistada

Legenda: Carrie Dann, líder indígena da etnia norte-americana dos shoshones ocidentais.
Fonte: http://envolverde. ig.com.br/ materia.php? cod=58391&edt=1

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