Indígena considera 'Marchar a Roraima' um ato discriminatório
Uma comitiva com mais de 50 caminhoneiros sairá do Mato Grosso na próxima segunda-feira (11) para realizar um ato de solidariedade aos arrozeiros de Roraima que são contrários à demarcação de forma contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Saturnino Watopowé, índio Xavante e secretário da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), afirma que o ato é uma provocação aos povos indígenas, já que entre os argumentos da marcha está o de que a demarcação é uma afronta à soberania brasileira. "Eles falam de soberania, mas nós é que somos ameaçados. Esse é um verdadeiro ato de discriminação contra os povos indígenas de todo o Brasil", rebate Saturnino.
Em uma nota de repúdio, a Coiab afirma que o ato está a serviço de interesses econômicos. "A atividade econômica promovida pelos arrozeiros na região está relacionada à invasão das monoculturas instaladas irregularmente no território indígena, violentando a vida dos povos indígenas e gerando impactos ambientais: desmatamento, agrotóxicos, contaminação da água, entre outros".
Saturnino acrescenta que a marcha é uma forma de aumentar a briga entre índios e arrozeiros e que o governo está permitindo a criação de uma facção dentro do país. Ele afirma também que os povos indígenas estão preparados e, caso não sejam assistidos, também tomaram providências.
O supremo Tribunal Federal pretende julgar o caso no próximo dia 27 quando determinará se a terra indígena permanece demarcada de forma contínua ou em ilhas.
A Marcha - Organizada pela Associação dos Produtores de Juína (Apraju), a marcha possui o apoio da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso, que já criou adesivos com o slogan "Acorda Brasil, a Amazônia é nossa". O ato pretende também repudiar a presença de organizações estrangeiras na região.
Os carros irão se juntar em Vilhena (RO) no dia 11, quando seguirão para Porto Velho. A chegada em Manaus está prevista para o dia 14. Segundo os organizadores, a manifestação deve chegar a Pacaraima (RR) até o dia 16 de agosto. (Fonte: Amazônia.org)
M a r c o P a u l o F r ó e s S c h e t t i n o e
H e n y o T r i n d a d e B a r r e t t o F i l h oCinco arrozeiros, políticos e militares atacam os direitos indígenas previstos na Constituição, alegam riscos à soberania nacional. Supõem que terras da União, de usufruto indígena, seriam declaradas pelos índios como Estados independentes, separadas do Brasil e entregues ao “estrangeiro”. Seria cômico se não fossem trágicas as conseqüências dessa campanha ideológica.
Tal campanha é retórica, sem qualquer compromisso com a realidade. As terras indígenas são de domínio da União e requerem a presença fiscalizadora do Estado. Aos índios cabe somente a posse.As Forças Armadas e a Polícia Federal podem nelas atuar. Reconhecer e regularizar terras indígenas é, portanto, um ato soberano do Estado brasileiro.
Os povos indígenas no Brasil são sociedades sem Estado, como há muito demonstrou o antropólogo Pierre Clastres. Não há nenhuma documentação oriunda de qualquer uma das 185 terras indígenas na faixa de fronteira que reivindique transformá-las em Estado-nação, ao contrário de movimentos não-indígenas publicamente separatistas (ver O Sul é Meu País, em www.meupais. hpg.ig.com. br).
Conforme argumentou Joaquim Nabuco, no conflito fronteiriço, os índios do nordeste de Roraima eram – e permanecem sendo – presença brasileira na região.São índios e seus descendentes a maior parte das tropas do Exército na Amazônia, as quais são requeridas pelos índios face a ameaças – tal como a dos madeireiros peruanos sobre os Ashaninka (no Acre) e a das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) sobre os Tukano (no Amazonas).
Terras privadas não requerem a presença do Estado. Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), 55% das terras privadas na Amazônia são de empresas com capital estrangeiro. Narcotraficantes podem comprar, por meio de “laranjas”, fazendas na faixa de fronteira para lavar dinheiro e utilizá-las em apoio ao tráfico.
O que ameaça a soberania da Amazônia é a ausência do Estado de Direito na região, transformando- a em verdadeira “terra-sem-lei” . Que as Forças Armadas se façam presentes e fiscalizem terras indígenas – observando regras básicas de respeito às populações indígenas –, unidades de conservação, reservas extrativistas, etc.
Quando se trata da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, vemos serem banalizadas tantas ilegalidades e violações de direitos humanos cometidas pelos seus opositores: assassinatos, grilagem, crimes ambientais,lesõ es corporais,porte ilegal de armas e explosivos, destruição de bens públicos incitamento ao racismo e ao conflito étnico, tudo registrado em inquéritos da Polícia Federal.
A referida campanha de (de)formação da opinião pública está promovendo a destruição ambiental – os arrozeiros foram multados em milhões de reais pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – e criminalizando as reivindicações indígenas pelos seus direitos. Força a radicalização do movimento indígena, empurrando-o para um confronto criado pela negação desses direitos, minados na campanha.
Por paradoxal que pareça,essa campanha vulnerabiliza a soberania nacional.O meio adotado pela maior potência militar do planeta para pôr em xeque a soberania de outras nações é a guerra ao terrorismo e ao narcotráfico. Documentos do Conselho Nacional de Informação dos Estados Unidos, analisados pelo sociólogo Boaventura de Sousa Santos, apontam os movimentos indígenas na América Latina como potenciais atores para imputar-lhes a pecha de “terroristas”, legitimando, assim, intervenções com vistas a seu combate.
A agressividade da atual campanha contra os direitos indígenas no Brasil está perto de criar o cenário ideal para que sejam assim caracterizados. Caso se declarem os movimentos indígenas “terroristas”, sujeita-se legitimar discursos e ações de caráter realmente intervencionista – o que parece ser o sonho dos que acalentam essa campanha.
Fonte: Revista Desafios • junho de 2008, p. 15 http://desafios. ipea.gov. br/
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2 de Agosto de 2008 - 17h32 - Última modificação em 2 de Agosto de 2008 - 18h55 Reunidos em Roraima, agricultores ensaiam reação contra demarcação de terras indígenas Marco Antônio Soalheiro - Repórter da Agência Brasil |
Parentes e amigos, repasso informaçãoes que li hoje (03.08.2008) no jornal A Tarde (Salvador, BA) "Wagner diz que colocou na PM 'homem de operação":
O Coronel Nilton Régis Mascarenhas, 57 anos, foi "um dos oficiais que comandou as cenas de pancadaria contra índios, sem-terra e integrantes do MNU [Movimento Negro unificado], no dia 22 de abril de 2000, durante os 500 Anos em Santa Cruz Cabrália e Porto Seguro. Na época ele era o comandante do Batalhão de Choque, e liderou os que jogaram aquelas bombas sobre os manifestantes. A ação da polícia foi extremamente violenta (Conforme Hamilton Borges, ativista do movimento negro baiano). Resultado: 141 presos e 25 feridos. Quem esteve lá deve recordar como foi um dia foi traumatizante para todos nós.
Pois, para quem pensava que este senhor deveria estar respondendo a um processo ou mesmo encarcerado, como um criminoso que é, vejam só: ele foi nomeado Comandante da Polícia Militar da Bahia, pelo governador Jaques Wagner, que o descreveu como um homem "muito bem qualificado". Mas até policiais o vêem como "um oficial que não abre espaço para o diálogo". No seu currículo estão "cursos de especialização em São Paulo, Rio e Pará" . Será que ele teve aulas práticas em Eldorado dos Carajás?
Vamos divulgar esta informação o máximo que pudermos, e enviar mensagens de protestos ao governador da Bahia e à própria Polícia Militar do Estado.
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