HIDRELÉTRICAS E INDÍGENAS NA AMAZÔNIA: ESCLARECEDORA ENTREVISTA
A luta dos Arara e dos Gavião contra os projetos hidrelétricos do Rio Machado, em Rondônia. Entrevista especial com Renata da Silva Nóbrega
 

O modelo de desenvolvimento do Brasil segue um avanço social próprio de seus governos anteriores, ou seja, prevalecem a opinião de poucos sobre a vida de muitos e o benefício de poucos que geram malefícios para muitos. Isso é muito bem exemplificado pela intransigência governamental acerca da construção de hidrelétricas na Amazônia. Ela é feita com a desculpa de aumentar a energia do país, mas beneficiando, verdadeiramente, inúmeras grandes indústrias localizadas na região, o que ocasiona um enorme prejuízo econômico, social, cultural e territorial para os povos da região, principalmente para os povos indígenas. Um desses projetos foi lançado na década de 1980 e, tempos depois, após uma grande movimentação social, foi cancelado, tendo sido relançado em 2005. O projeto, hoje, foi remodelado, mas continua e pretende destruir territórios indígenas sagrados. “É como se os índios fossem invisíveis”, diz Renata da Silva Nóbrega, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line.

Renata acaba de apresentar o trabalho “A luta dos Arara (Karo) e dos Gavião (Ikólóéhj) contra os projetos hidrelétricos do Rio Machado, em Rondônia”, na Unicamp, onde conheceu um mundo tão próximo ao dela, mas, ao mesmo tempo, tão distante. “Essa é a cidade onde fui criada e o interesse pela barragem foi despertado exatamente pela grande luta dos índios. Foi ouvindo a resistência e analisando a luta que houve esse despertar para tentar conhecê-la mais. Além disso, a experiência me permitiu conhecer os índios, porque, apesar de ter crescido na cidade, eu não os conhecia, nunca havia tido contato direto com eles”, contou-nos.

Renata da Silva Nóbrega é graduada em Relações Internacionais, pela Universidade de Brasília, e mestre em Sociologia, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O Rio Machado é apenas mais uma das lutas dos índios no Norte do país. Como foi para você trabalhar com indígenas e com suas lutas?

Renata da Silva Nóbrega – Eu me envolvi com essa questão do Rio Machado porque eu sou de Ji-Paraná [1] também. Então, esse é um assunto que me diz respeito. Essa é a cidade onde fui criada e o interesse pela barragem foi despertado exatamente pela grande luta dos índios. Foi ouvindo a resistência e analisando a luta que houve esse despertar para conhecê-la mais. Além disso, a experiência me permitiu conhecer os índios, porque, apesar de ter crescido na cidade, eu não os conhecia, nunca havia tido contato direto com eles.

Essa experiência foi ímpar. O processo da pesquisa e de conhecer o assunto que escolhi foi um processo de autoconhecimento, porque eu conheci melhor a história da cidade onde cresci e somente quando me detive sobre a luta dos índios contra a barragem percebi o que chamo no trabalho de um apartheid, que separa as populações indígenas das demais populações amazônicas, como se os índios fossem invisíveis. Esse foi um trabalho de muita descoberta. Eu me deparei com essa ignorância. Os índios vivem a 30, 40 quilômetros da cidade, circulam pelo município, mas eu mesma ignorava essa existência. Esse conhecimento me transformou muito.

Continua: http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=14457

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Cimi critica conclusão da CPI da Desnutrição Indígena - 05/06/2008
Carolina Freitas

Depois de seis meses de trabalhos, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Desnutrição Indígena, da Câmara, aprovou hoje seu relatório final.  No documento de 228 páginas, os parlamentares pedem verbas, contratações e reestruturação nas fundações que tratam da questão indígena.  Não fixam, no entanto, cifras ou prazos para a implementação das medidas.  Para o coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no Mato Grosso do Sul, Egon Heck, os deputados não atacaram a causa principal da desnutrição nas aldeias: a demora na demarcação de terras indígenas.  Na opinião dele, as falhas fazem do produto da CPI "mais um belo documento, que vai parar em gavetas por aí."

A comissão foi aberta em dezembro do ano passado para investigar causas e responsabilidades pelas mortes de crianças índias por subnutrição de 2005 a 2007.  A situação era crítica especialmente em Mato Grosso do Sul, onde morreram de fome 50 índios.  A CPI já nasceu desacreditada entre ativistas da causa indígena, que temiam o esvaziamento dos trabalhos.  "Havia inúmeras ações investigativas sobre o assunto, sem qualquer ação efetiva", afirma Heck.  "Isso já indicava a areia movediça em que a CPI iria se afundar."

O coordenador diz que os deputados se preocuparam demais em encontrar problemas e de menos em buscar soluções.  "Não era o caso de identificar problemas.  Isso já estava feito", diz Heck.  "Eles fizeram uma pesquisa correta, mas não propuseram nada de concreto, nenhum avanço."  Para Heck, a CPI apresentaria resultados positivos se os parlamentares tivessem priorizado soluções que agilizassem a demarcação de terras indígenas.  "O assunto mereceu não mais que uma recomendação", reclama.  "A falta de terra desencadeia um cenário de violência, fome e doenças nas aldeias.  Não adianta dar cestas básicas se não demarcar terras."

Segundo o Cimi, o problema da fome entre os índios começou quando eles foram tirados de seus territórios originais para a expansão da agricultura em latifúndios.  Isso desorganizou a economia de partilha, base das aldeias indígenas, e os deixou sem terras onde produzir alimentos.  "A expulsão foi violenta e repentina, e eles perderam as condições de produção", explica Heck.  "Da abundância, passaram a uma situação de fragilidade e dependência."

http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=272947 
Fonte: Agência Estado
Link: http://www.estadao.com.br/agestado/

Reação indígena é positiva, diz antropólogo

Eduardo Viveiros de Castro diz que ataque de caiapós não tem justificativa, mas explicação; engenheiro teria agido de forma arrogante

Especialista critica modelo de desenvolvimento à base de exportação de produtos e diz que essa exploração é "ambientalmente estúpida"

MALU TOLEDO
DA SUCURSAL DO RIO

A quem se estarreceu com as imagens de índios caiapós ferindo com facão um engenheiro da Eletrobrás, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro oferece um eixo de compreensão: "Não é uma ação inexplicável, não se deve ao temperamento primitivo e selvagem dos índios. Se deve ao modo como eles reagem diante de situações, que nós, talvez acostumados à obediência e à humildade, talvez não reajamos assim".
"Talvez o que redima os índios, e o que os tem mantido vivos até hoje, seja o fato de não estarem excessivamente acostumados à humildade e à obediência e que ainda conseguem reagir. Não sei se isso é um mau sinal assim", afirma.
Viveiros de Castro analisa a crise amazônica como símbolo de um impasse. "Há um certo modelo de desenvolvimento que se tornou dominante. Um modelo baseado na exportação maciça de produtos do agronegócio, pecuária e agora os biocombustíveis. São modos de exploração ambientalmente estúpidos e sem futuro do ponto de vista da sustentabilidade."
Nascido no Dia do Índio (19 de abril), Viveiros de Castro, 57, tornou-se a maior autoridade em etnologia indígena do país. Doutor em antropologia social pela UFRJ, tem pós-doutorado pela Universidade de Paris e é professor no Museu Nacional desde 1978.
É autor de livros como "Bruxarias, Oráculos e Magia entre os Azande" (2004), "A Inconstância da Alma Selvagem" (2002), "Amazônia" (1993) e terá lançado em 16 de junho a coletânea de ensaios em inglês "The Turn of the Native". Falou à Folha no lançamento de coletânea de entrevistas suas pela editora Azougue, no Rio.  

FOLHA - Como o sr. analisa a polêmica sobre a exploração econômica da Amazônia, que envolve a questão indígena?
EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO
- O que está em discussão na verdade é o destino da Amazônia, se o Brasil sabe cuidar do que é seu. Há muita conversa, pouca ação. A ação que se tem, só se vê de destruição. A discussão sobre os índios é sintomática, porque o que se debate, na verdade, é que país queremos ser: um país realmente do futuro -que é a capacidade de ter uma relação com a sua base ambiental, seus recursos, uma relação moderna- ou ter uma relação antiga, como se tinha no século 19, baseada na destruição, no desmatamento e na exportação do nosso ambiente.
Se queremos ser de fato um país do futuro, para valer, ou "país no futuro". Queremos ser realmente a segunda China, como disse o presidente num momento de especial infelicidade? Ou queremos ser o Brasil?

FOLHA - Qual a sua avaliação da atual política indigenista?
VIVEIROS DE CASTRO
- O presidente da Funai é muitíssimo mais capaz que o presidente anterior. A política indigenista desse governo não é pior do que a do governo anterior. Sob alguns aspectos é até melhor. É infinitamente superior a políticas indigenistas dos governos militares, por exemplo, que foram justamente aquelas que o general [Augusto Heleno, comandante na Amazônia, que declarou no dia 16 de abril que a "política indigenista é um desastre"] evocou num momento de saudosismo, dizendo que a política indigenista estava caótica. Caótica estava no tempo dele, no tempo dos generais e coronéis. Mas, sem dúvida, há coisas que não vão bem.

FOLHA - Quais?
VIVEIROS DE CASTRO
- Há um certo modelo de desenvolvimento que se tornou dominante. Um modelo baseado na exportação maciça de produtos de agronegócio, pecuária e agora os biocombustíveis. São modos de exploração ambientalmente estúpidos e sem futuro do ponto de vista da sustentabilidade. Visam fazer dinheiro fácil, digamos assim. Usam pouquíssima mão-de-obra e áreas muito extensas. Destroem freneticamente o meio ambiente. Se você olhar o mapa de Mato Grosso por satélite, vai ver que as únicas áreas verdes que restam no território são indígenas.

FOLHA - Qual sua opinião a respeito do debate sobre a reserva indígena Raposa/Serra do Sol?
VIVEIROS DE CASTRO
- O que está em discussão é se eles têm direito ou não a essas terras, que não é área de floresta, é região de campos. Acho que eles têm de ficar ali, não tem a menor conversa. Eles tinham direito àquelas terras, sempre tiveram.
Os direitos deles precedem os nossos. Nós reconhecemos isso ao dar aos índios direitos históricos sobre as terras que ocupam. Essa discussão é inteiramente viciada por uma mistura de interesses, que estão se fundindo na imaginação e na mídia, dos grandes produtores de arroz, cana e soja, que não têm em mente a pátria como questão. Entre os patriotas profissionais e os empresários, cujo única religião é o dinheiro, está havendo uma estranha convergência de opiniões, que só pode estar baseada num equívoco e na ingenuidade, que eu não diria recíproca.

FOLHA - Como o sr. analisa as cenas de agressões dos índios a um engenheiro da Eletrobrás, que foi ferido no braço por facões?
VIVEIROS DE CASTRO
- Essas cenas não são falsas. Estão sendo usadas. Mas, como todo mundo sabe, cena é cena, montagem é montagem, escolha de imagem é escolha de imagem. É claro que essas cenas aconteceram. Há cenas violentas dos índios, como há cenas de violência de uma quantidade de brasileiros em situações desse tipo ou semelhantes. Volta e meia aparece na TV a polícia chutando um negro na rua e parece causar menos escândalo do que índios dando uma prensa num engenheiro branco. É estranho.

FOLHA - Foi um caso pontual aquela reação dos índios?
VIVEIROS DE CASTRO
- Foi uma indignação. Pelo que eu soube, e isso não justifica de forma alguma o jeito como isso se desen- rolou, o engenheiro se comportou de forma arrogante e incivil. Tratou a platéia de maneira paternalista, como se fosse composta por ignorantes e ingênuos. Os índios não têm muita tolerância para esse tipo de atitude. Sobretudo os caiapós.
Eles não gostam de serem tratados como idiotas. O que me contaram é que o engenheiro tratou as pessoas mal, e foi maltratado. Não estou dizendo que ele deveria ser maltratado. Não há justificativa para a ação, mas há explicação. Não é uma ação inexplicável, não se deve ao temperamento primitivo e selvagem dos índios.
Deve-se ao modo como eles reagem diante de situações, que nós, talvez acostumados à obediência e à humildade, talvez não reajamos assim. Talvez o que redima os índios, e o que os tem mantido vivos até hoje, seja o fato de não estarem excessivamente acostumados à humildade e à obediência e que ainda conseguem reagir. Não sei se é um mau sinal assim.
Os caiapós, índios do médio Xingu, têm uma tradição de ser um povo orgulhoso, que não leva desaforo. O que eu soube -eu insisto, não estava lá- é que eles se sentiram insultados.
Para começar, eles não deram uma facada. Se eles quisessem decapitar o engenheiro, não seria tão difícil. Foi mais uma bagunça. E todo mundo com um facão, com um pedaço de pau, não é das situações mais agradáveis. Não esqueçamos que esse caso de Altamira já ocorreu em 1989. A diferença é que a pessoa não se mexeu, então não se cortou. A situação é muito parecida, só que na época não deram atenção, não fizeram esse escândalo todo porque agora o caso está conectado a outras coisas.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0106200811.htm   01.06.2008

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