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E hoje bem que podíamos ter uma boa notícia né?
Mas...hoje é dia de celebração e luta.
Queremos a reparação das violações de direitos humanos que os povos indígenas do Brasil vem sofrendo.
19/04/2008 10:39
Nota da Associação Brasileira de Antropologia sobre a Ação do Governo Federal sobre a situação da Terra indígena Raposa Serra do Sol.
Luís Roberto Cardoso de Oliveira - Presidente
Antonio Carlos de Souza Lima - Comissão de assuntos Indígenas
Associação Brasileira de Antropologia
A Associação Brasileira de Antropologia vem se juntar ao conjunto de entidades das sociedades civil e política brasileiras no sentido de defender junto a V.Sa.a homologação da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol em área contínua, com ações de retirada de ocupantes não–índios (seis arrozeiros!) , conforme decretado no primeiro Governo do Presidente Luis Inácio Lula da Silva o estabelece, consoante a defesa da legalidade e dos princípios de um Estado de Direito como consagrados na constituição de 1988.
Ao longo de seus 50 anos de existência, nossa associação, a primeira sociedade científica na área das ciências humanas no Brasil, e uma das três maiores associações antropológicas no mundo, esteve engajada em numerosas causas sociais, de acordo com o imperativo de responsabilidade moral e ética que impele o antropólogo à defesa dos grupos socialmente minoritários com que trabalha, e não nos faltaram momentos para demonstrá-lo, fosse em tempos de regime ditatorial, fosse sob a democracia. Nosso fazer profissional, nosso compromisso moral e ética têm nos colocado diante da situação de agirmos fundamentando as bases da ação de Estado no reconhecimento dos direitos indígenas aos territórios que tradicionalmente ocupam, seja sob a forma de relatórios originados no trabalho de identificação dessas terras, seja sob a forma de laudos periciais para fins judiciais.
É com base no acúmulo de conhecimentos ao longo de mais de duas décadas atuando em processos de identificação fundiária, de um consenso em nossa comunidade sobre as formas cientificamente adequadas de fazê-lo que cremos, com base nos estudos antropológicos idôneos que informam a demarcação já realizada da área Raposa-Serra do Sol, ocupada por indígenas Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang, Patamona, vítimas de toda sorte de violência na região, que em função da presente situação pode exponencialmente se multiplicar. Repudiamos a morosidade na retirada dos ocupantes não índios, as concessões políticas feitas a um número de seis indivíduos cujos interesses políticos configuram o que muitos chamam de "estado de Roraima", na verdade um estado indígena cuja verdadeira riqueza jaz nas mãos desses 18.000 mil indivíduos desses povos, cidadãos brasileiros como todos nós. Com base na experiência de nossos associados vimos destacar que não apenas os povos indígenas têm sido os mantenedores das fronteiras do Brasil ao longo do período colonial, imperial e republicano, muito antes dos ditos habitantes não indígenas de Roraima e de boa parte da Amazônia terem lá chegado. Tais procedimentos, num pseudo-nacionalismo emanado de vozes militares e civis manifestamente ignorantes do verdadeiro país em que vivemos, são sintoma das imensas desigualdades que marcam, lamentavelmente, o Brasil.
É no sentido de urgir o Governo Federal a agir no interesse da ordem, da lei e da paz e de intervir no sentido de dirimir tais problemas, que a Associação Brasileira de Antropologia se manifesta mais uma vez em nome da democracia, da pluralidade e da verdade científica como bases de uma sociedade mais justa. Fazemo-lo com base na experiência de mais de década de demarcação de terras indígenas em regiões de fronteira, que hoje se encontram mais seguras dada à certeza da presença daqueles que são os primeiros e mais legítimos habitantes de nossa terra.
A ABA coloca-se à disposição para debater e contribuir na direção do pleno reconhecimento dos direitos indígenas.
Cada país tem o seu Custer, diz Possuelo
Sertanista Sydney Possuelo compara general Augusto Heleno a militar
americano que massacrou os índios no século 19
Ex-presidente da Funai diz que Exército, agronegócio e garimpeiros
somam suas forças para negar os direitos dos povos indígenas
CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA
O sertanista Sydney Possuelo, que completa 68 anos hoje, já viu antes
o discurso de soberania nacional ser usado para tentar impedir a
demarcação contínua de terras indígenas na Amazônia. Foi em 1992,
quando era presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio) e agiu, no
governo Collor, para homologar a terra indígena ianomâmi, de 9,7
milhões de hectares, entre os Estados de Roraima e Amazonas.
"Eu me recordo de uma reportagem que saiu no jornal dizendo que meu
objetivo era demarcar a terra ianomâmi juntamente com potências
européias e os Estados Unidos e, ao final da demarcação, eu seria
aclamado o rei da área indígena", recorda-se, completando: "Mais de 16
anos depois, a Amazônia continua com a mesma configuração".
Possuelo diz que as declarações do general Augusto Heleno sobre a
política indigenista "caótica" brasileira, feitas nesta semana no
contexto da disputa em torno da terra Raposa/Serra do Sol (RR),
refletem uma postura que ressurge toda vez que o Estado quer cumprir a
lei a favor dos povos indígenas.
"Os militares com essa questão de segurança nacional, as pessoas do
agronegócio, que se unem também aos garimpeiros. Essas forças se somam
para negar aos povos indígenas o direito que eles têm." O sertanista
comparou Heleno ao general americano George Custer (1839-1876), que
massacrou os índios cheyennes e sioux ("Cada país tem o Heleno ou o
Custer que merece") e disse que "ainda bem" que a política indigenista
brasileira está dissociada da história do país:
"O que seria interessante? O retorno ao que era antes? O retorno aos
massacres? É isso o que ele propõe?" Leia a entrevista:
FOLHA - O general Augusto Heleno, comandante da Amazônia, disse na
quarta-feira que a política indigenista brasileira é "caótica" e está
"dissociada da história do país". Como o sr. avalia a declaração?
SYDNEY POSSUELO - Ainda bem que está dissociada da história do Brasil,
porque a história do Brasil é uma sucessão de massacres, violência e
desrespeito aos povos que já habitavam aqui antes. O que seria
interessante? O retorno ao que era antes? O retorno aos massacres? É
isso o que ele propõe?
FOLHA - De tempos em tempos, esse discurso de soberania nacional
ressurge no Exército. Por quê?
POSSUELO - Esse problema sempre retorna. Os militares têm com esse
boneco empalhado internacional que eles vêem querendo engolir a
Amazônia a todo momento sempre pela mão dos povos indígenas. E essa
postura retorna toda vez que o Estado quer reconhecer as terras
indígenas. Todas as vezes que o Estado quer efetuar aquilo que é de
lei essas forças ressurgem. E elas se somam, elas se unem: os
militares com essa questão de segurança nacional, as pessoas do
agronegócio, que se unem também aos garimpeiros. Essas forças se somam
para negar aos povos indígenas o direito que eles têm de viver naquele
espaço, que é território nacional. Nos EUA, dezenas de reservas já
foram demarcadas, e etnias têm lá o seu controle de pessoas que entram
e saem, porque é a casa deles.
FOLHA - Sem que nos EUA isso seja considerado perda de soberania...
POSSUELO - Exatamente! Isso não existe! Diz para ele [general] entrar
com a tropa dele numa área de preservação ambiental, que é território
brasileiro, e derrubar tudo. Não pode! Não é porque é Exército que tem
o direito de invadir a casa dos outros. Isso [as declarações de
Heleno] acontece cinco ou seis dias depois que o presidente da
República fez uma declaração prenhe de bom senso e justiça defendendo
a demarcação contínua de Raposa/Serra do Sol. A fala dele é no mínimo
hostil ao governo, se não for um ato de indisciplina.
FOLHA - Por que demarcar uma terra contínua e não em ilhas?
POSSUELO - A terra onde habitam etnias e povos que aqui estavam tem de
ser contínua. Você não pode dividir a cidade de São Paulo: "Eu entro
até os Jardins. Dos Jardins para o outro lugar eu não posso mais
entrar, embora tenha ali o meu cemitério, o lugar onde eu planto".
FOLHA - O STF agiu certo ao suspender a operação de retirada dos
arrozeiros pela Polícia Federal?
POSSUELO - A operação da PF já deveria ter acontecido anos atrás,
quando o governo FHC delimitou a terra. [O STF] interrompe um processo
que seguiu todo o ritual legal. Se o Supremo pára a ação legal em
razão de uma disputa entre o Estado e a União, dá para entender a
questão legalmente. Mas se ele pára porque "o Estado de Roraima já
cedeu terras demais"... o Estado de Roraima não "cede", a União não
"cede" terras! A União reconhece o direito de os índios estarem ali.
FOLHA - Quando foi feita a demarcação da terra indígena ianomâmi, o
ministro da Justiça era o Jarbas Passarinho, um militar, que apoiou a
demarcação contínua. Mudou a postura das Forças Armadas?
POSSUELO - Ainda bem que você não tem só um general no Exército. Você
tem homens que não aprenderam só a marchar. Ainda bem que não temos só
o Heleno. Cada país tem o Heleno ou o [George] Custer que merece. Nós
não podemos voltar à barbárie. Não é a violência que vai garantir a
integridade territorial do Brasil. É você demarcar a terra, dar [ao
índio] escola, respeitar os direitos dele, que gera o sentimento de
brasilidade. Se o sujeito recebe do Brasil maus-tratos e do Peru
recebe educação e saúde, ele vai dizer: "Eu sou é peruano".
FOLHA - Existe um sentimento antiíndio em Roraima, de que 50% do
território é terra indígena e sobra muito pouco para os não-índios.
POSSUELO - Sempre que se disputa terra, você prega estereótipos nos
povos indígenas: preguiçosos, com muita terra para nada, e nós, que
queremos produzir, não temos a terra. O [Daniel] Ludwig, quando criou
o projeto Jari, tinha uma área imensa, 4 milhões a 6 milhões de
hectares, só dele. Mas ninguém brigava. Porque, por trás daquilo tudo,
havia uma intenção: vamos cortar essas árvores para a Amazônia ser
moderna, dar lucro. Essa grande extensão territorial do Brasil,
principalmente Estados como Roraima, nós conseguimos manter contra
outras potências estrangeiras na época porque os povos indígenas que
ali habitavam foram considerados súditos da Coroa portuguesa. Então,
quando tem interesse nacional, eles são súditos, mas quando não tem
interesse, são empecilho ao desenvolvimento.
Fonte: Folha de São Paulo, 19 de abril de 2008.
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