DISCURSO DA RESISTÊNCIA INDÍGENA
Houve um tempo em que tudo era bom. Vivíamos saudáveis e andávamos de cabeça erguida. Nossas crianças e nossos anciãos não passavam necessidade. Havia caças na floresta e peixes nos rios, e a terra sempre nos dava a mandioca, a batata e o milho. Mas este tempo acabou quando eles chegaram com suas doenças, suas armas assassinas de guerra e sua fala cheia de engano e cobiça. Roubaram, arrasaram, torturaram e assassinaram milhões de irmãos nativos. E sobre a terra encharcada de sangue ainda morno, sobre os cadáveres e os escombros das nossas aldeias e cidades, celebraram seus ritos tristes e construíram seus fortes e igrejas. E nos batizaram à força, para logo nos escravizar.
E fez-se uma longa e silenciosa noite nesta Terra. Os povos sobreviventes se recolheram no mais fundo interior da mata, amedrontados e silenciosos. Relâmpagos brilhavam na madrugada. Era a voz de nossos guerreiros. Amaro Tupinambá e Ajuricaba gritaram na Amazônia, Sepé Tiaraju nas Missões Guarany e tantos irmãos nossos na Confederação dos Tamoios. Mas não conseguiram fazer dia novamente. Curvados sob o jugo da servidão, não podíamos levantar o rosto.
Perto do fogo, nossos sábios falavam baixinho, contando a história e falando dos Deuses e heróis, do tempo em que eles viviam entre nós. Aprendíamos que a batata, o inhame e a mandioca são herança dos nossos avós originários. Muitas luas se passaram. Muitos parentes viveram sobre a Mãe Terra, que depois os acolheu novamente. Até que um dia, os sábios sonharam com nosso Deus Criador e Doador da Vida. Ele dizia que era chegada a hora de levantar o rosto, enxugar as lágrimas, reunir todos os índios para uma batalha diferente pela reconquista dos territórios sagrados, e recomeçar a fazer festas de muitos dias, com muita bebida e carne moqueada, porque Ele iria visitar todos os povos sobreviventes do holocausto indígena.
Os sábios reunidos falaram: Aqueles que trouxeram a cruz e a espada nos transformaram
Os conquistadores não nos venceram e não nos vencerão. Ainda hoje estamos de pé. Pois foi o próprio Verdadeiro e Único Deus que nos criou, nos deixou aqui e entregou-nos esta Terra para cuidar, dizendo que nosso espírito é eterno e livre. Pediu que sempre cantássemos e dançássemos no círculo sagrado para que assim Ele pudesse nos reconhecer como os seus filhos. E ainda hoje dançamos e lutamos por Terra, Justiça e Liberdade para todos os índios(as): índios nativos, índios negros, índios palestinos, índios brancos... Todos.
(Inspirado em poesias do argentino Victor Heredia e em relatos indígenas de vários povos do continente)
Frei Florêncio Almeida Vaz – 04/08/2005
Índio Maytapu (Pará), 41 anos, frade franciscano, ativista do movimento indígena na Amazônia, formado
florenciovaz@yahoo.com.br
[1] Adaptação da Declaração Solene dos Povos Indígenas do Mundo - Port Alberni, 1975
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