ENTREVISTA COM PAIAKAN (CONTINUAÇÃO)
Quando você retomar a liberdade, o que pretende fazer?
Paiakan: Se o caso for resolvido, eu vou continuar. Eu sou Paiakan. Vou lutar pelos direitos indígenas, pelos seres vivos que precisam ser defendidos. O ser vivo que é a floresta, o ser vivo que é o rio, o ser vivo que é a terra... Se um dia eu retomar minha liberdade, vou continuar minha luta, defendendo nossos territórios, a cultura indígena, junto com nossas lideranças, junto com outros povos indígenas.
Enquanto eu estou aqui na floresta, vejo que a luta dos povos indígenas está um pouco paralisada. Várias lideranças, não só dos Kayapó, comentam que sentem falta do meu apoio. Três Xavantes de Mato Grosso vieram aqui me visitar... Um jovem e dois velhos, um cacique e outro curandeiro. A gente chorou junto de emoção, contando a luta do passado. O que eu pretendo fazer aqui na aldeia é criar uma escola para educar as pessoas sobre como viver com a natureza. Para qualquer pessoa. Preservação da cultura indígena e resgate do conhecimento tradicional. É com isso que a escola vai lidar.
De: "rodolfosalm" <rodolfosalm@ terra.com. br>
Data: Thu, 5 Apr 2007 07:11:30 -0300
Assunto: [REMTEA] Paiakan: "A Terra Kayapó está
sendo ameaçada"
| Paiakan: "A Terra Kayapó está sendo ameaçada" |
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| Escrito por Michel Blanco |
| 04-Abr-2007 |
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O Correio publica entrevista de Michel Blanco com o índio Paulo Paiakan à revista Brasil Indígena (Ano III, n. 4, outubro/novembro de 2006), veiculada pela FUNAI.
A pergunta, embora indelicada, é inevitável. Sobre a acusação de estupro, qual a sua versão?
Paiakan: Eu entendi que não era acusação de estupro, e sim uma acusação política de um crime que eu realmente não cometi. Desde o começo, o advogado tentou me fazer usar da mentira e dizer assim: “Eu estuprei”. Para ser preso e depois ser libertado, porque teria assumido uma culpa. Mas eu nunca aceitei isso. Dentro da cultura kayapó, sou uma pessoa respeitada e conhecida. Então, tenho de falar a verdade. Se eu tivesse realmente cometido esse crime, publicamente, dentro da cultura dos Kayapó e perante a sociedade do homem branco, nem gaguejaria para assumir.
Você já era muito conhecido quando foi acusado. O caso teve grande repercussão na mídia. Isso o afetou muito?
Paiakan: Teve repercussão para me desmoralizar e para desmoralizar a população indígena do Brasil. E fazer com que eu ou outro índio não lutássemos pelos nossos direitos. A revista Veja publicou minha imagem na capa. Por que eu estou dizendo isso? Porque a Veja é inimiga de índio. Por isso divulgam o nome feio, a imagem feia, para tentar mostrar para todo o mundo que o índio está errado. Eu dou toda a razão de homem branco brigar comigo, principalmente a Veja. Porque eles são inimigos de índio.
A Veja está brigando, pensei, porque eu defendo meu território indígena, onde eu sou origem. Pura origem. O homem branco veio, se nacionalizou brasileiro e está brigando com nós, indígenas, está com inveja por causa das coisas que nós temos que homem branco não tem. É um prazer homem branco brigar comigo porque é sinal de que ele está vendo que eu sou índio e eu tenho as coisas do índio. Agora, se algum dia eu tiver oportunidade de conversar com o editor da Veja, aí sim, nós discutimos, dialogamos sobre o conhecimento dele, o meu conhecimento. Não adianta eu brigar com a Veja. Eles [da revista] estão com todo o poder nas mãos. E eu não tenho nenhum poder. Como a formiguinha, ela pode brigar com o elefante?
Você transita por muitas aldeias Kayapó e freqüentemente é consultado sobre diversos assuntos. Para você, qual é a opinião dos Kayapó sobre as atividades econômicas próximas da área?
Paiakan: A Terra Kayapó está sendo ameaçada sem o Kayapó perceber. Kayapó acredita que homem branco está respeitando os limites. Mas eu não acredito. Tenho certeza de que o asfaltamento da BR 163 é um risco muito grande de entrada de homens brancos na área. Vão dizer: “Ali não tem ninguém, vamos fazer uma rocinha”. E assim começa, ocupando aos poucos.
A BR 163 deveria ser discutida com as comunidades indígenas e o governo deveria deixar claro para todo o mundo que a terra indígena deve ser respeitada. Se houver uma invasão, o governo deve oferecer garantia de que vai retirar o invasor, tomar providência. Aí sim a gente pode apoiar o asfaltamento. Enquanto o governo não garantir nada, o risco de invasão continuará com a pavimentação da BR 163.
Outro risco para a Terra Kayapó é a mineradora Onça Puma, ligada à grande Companhia Vale do Rio Doce. Já está trazendo o povo de outra região para ocupar municípios vizinhos da Terra Kayapó, como Tucumã e Ourilândia. Essa empresa vai trazer muita gente que vai querer terra e o governo municipal vai tentar conceder mais espaço.
A construção de Belo Monte também é outra preocupação muito grande. O governo está insistindo em construir a barragem sem consultar a comunidade. Se tivesse diálogo com as autoridades indígenas, aí poderia haver interesse dos dois lados de fazer a barragem. Agora, sem explicar, sem garantir a participação da comunidade, nós somos contra. Se não houver participação dos índios nesse projeto, continuará havendo discriminação. Cadê a igualdade? Por que não podemos ser ouvidos?
Uma coisa importante que pouca gente sabe: minha briga contra Belo Monte não era uma defesa só da vontade dos Kayapó. Na época em que morei em Altamira, eu viajava para várias aldeias e fui viver na tribo dos Assurini. Eu lembro que, se a barragem fosse feita, os Assurini iriam perder a terra deles. Então decidi assumir essa luta para defender os Assurini. Foi aí que convoquei os Kayapó e outros grupos para lutar contra a barragem. A grande manifestação foi em fevereiro de 1989.
Quando você retomar a liberdade, o que pretende fazer?
Paiakan: Se o caso for resolvido, eu vou continuar. Eu sou Paiakan. Vou lutar pelos direitos indígenas, pelos seres vivos que precisam ser defendidos. O ser vivo que é a floresta, o ser vivo que é o rio, o ser vivo que é a terra... Se um dia eu retomar minha liberdade, vou continuar minha luta, defendendo nossos territórios, a cultura indígena, junto com nossas lideranças, junto com outros povos indígenas.
Enquanto eu estou aqui na floresta, vejo que a luta dos povos indígenas está um pouco paralisada. Várias lideranças, não só dos Kayapó, comentam que sentem falta do meu apoio. Três Xavantes de Mato Grosso vieram aqui me visitar... Um jovem e dois velhos, um cacique e outro curandeiro. A gente chorou junto de emoção, contando a luta do passado. O que eu pretendo fazer aqui na aldeia é criar uma escola para educar as pessoas sobre como viver com a natureza. Para qualquer pessoa. Preservação da cultura indígena e resgate do conhecimento tradicional. É com isso que a escola vai lidar. |
(Continua)
DESNUTRIÇÃO LEVA OS INDÍGENAS À INDIGÊNCIA
Desnutrição transforma índios em indigentes
HOME PAGE NOTÍCIAS TERRA, 02.04.2007
Bernardo Gutiérrez
A índia caiová Geria tem 2 anos de idade e pesa 5 kg. Continua
respirando por milagre. Geria é uma das sobreviventes de uma tragédia
que matou 13 crianças em sua aldeia. A tragédia se resume em duas
palavras: desnutrição crônica. Geria vive a 15 km de Dourados, no Mato
Grosso do Sul, um dos pólos agrícolas mais prósperos do Brasil. Mas
sua família, como todos os habitantes guaranis-caoivá s das reservas de
Jaguapiru e Bororó, vive na mais absoluta miséria. A situação é tão
comum que resultou na criação do Centro de Recuperação de
Desnutridos, em Missão Caiová. Geria, cujo caso comoveu o Brasil
durante meses, é apenas uma indígena a mais. Apenas um dígito entre os
734 mil indígenas que vivem no Brasil, de acordo com o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E representa com
perfeição o abandono em que vivem os povos indígenas. A moralidade
infantil entre os índios é 124% mais elevada do que entre os brancos
(51,4 de cada mil índios morrem antes do primeiro aniversário), de
acordo com o IBGE. E há mais: violência, perseguição, racismo,
assassinatos, ocupação de suas terras. Nos últimos 10 anos, 287 índios
foram assassinados, de acordo com o relatórios sobre a violência do
Conselho Missionário Indígena (Cimi). Os últimos três anos estudados
para o relatório (2003 a 2005) foram especialmente sangrentos, com 122
indígenas assassinados. E é no Estado do Mato Grosso do Sul, onde vive
Geria, que os conflitos são mais violentos, com quase 50% dos casos.
No Mato Grosso do Sul, onde vivem 32.519 indígenas, de acordo com
recenseamento da Fundação Nacional do Índio (Funai), o avanço da
agricultura latifundiária está exacerbando os conflitos. Hoje existem
15 regiões no Estado nas quais os indígenas estão em pé de guerra,
para recuperar terras que lhes pertencem legalmente. "No Mato Grosso
do Sul, vem ocorrendo um verdadeiro genocídio", garante Lucia Helena
Rangel, doutora pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e
uma das responsáveis pelo relatório do Cimi. "Como evoluiu a questão
indígena no Brasil desde que Lula chegou ao poder? A situação das
220 tribos indígenas brasileiras melhorou? A resposta vem de Samuel
Feitosa, e é um taxativo não. O vice-presidente do Cimi afirma que "o
governo Lula manteve a mesma política adotada pelo de Fernando
Henrique Cardoso, submetendo a causa indígena à agenda neoliberal, à
mineração, à exploração madeireira, à construção de hidrelétricas e
rodovias em terras indígenas". A Funai mesma, cujo censo indígena
(apenas 430 mil indivíduos, segundo este) difere do realizado pelo
IBGE, reconhece que 130 mil índios vivem em terras na área de
conflito, em 50 áreas que ainda estão sendo identificadas. Há 130 mil
indígenas em confronto direto com madeireiros, agricultores e
garimpeiros, portanto. O Brasil dispõe de 600 reservas indígenas, o
que representa 12% do território nacional e 22% da superfície da
Amazônia. Em teoria, as reservas indígenas continuam a crescer, mas,
em termos práticas, a situação é muito mais complicada. Os principais
territórios em conflito estão localizados nas fronteiras agrícolas,
especialmente no Mato Grosso do Sul e no oeste de Santa Catarina. "O
mais grave é que o presidente da Funai defende os interesses dos
invasores de terras indígenas", diz Feitosa. Nos três últimos anos, de
acordo com o Cimi, houve 98 casos de conflitos territoriais com povos
indígenas. Alguns deles, como o episódio que resultou na morte de 29
garimpeiros, em Rondônia, em 2004, demonstram que demarcar uma reserva
indígena no mapa não é suficiente. Os índios Cinta Larga, depois de
inúmeras invasões a seu território por agricultores e garimpeiros,
entraram em pé de guerra. E o tiro lhes saiu pela culatra: a imprensa
e a sociedade civil repudiaram o massacre e a causa indígena saiu
prejudicada. O caso mais espinhoso da era Lula é o da demarcação
contínua das terras indígenas em Raposa/Serra do Sol, em Roraima, um
Estado na Amazônia. Lula assinou em 15 de abril de 2005 um decreto que
concedia 1,7 milhão hectares à criação de uma reserva indígena
contínua, em um território que abriga 15 mil índios das etnias macuxi,
taurepangue, ingaricó, uapixana e patamona. A medida foi aplaudida
pelas organizações de defesa dos direitos indígenas, mas fortemente
criticada pelo governo local e pelos empresas agrícolas. Com a
demarcação contínua, 300 mil famílias não indígenas que vivem na
região teriam de abandonar a reserva. Mas pouco mudou de lá para cá.
Quando a Polícia Federal foi enviada ao local para tentar implementar
o decreto, a região se levantou em protesto. O prefeito de Paracaima,
a localidade mais importante da região, decretou estado de emergência.
A reserva está a ponto de ser entregue formalmente aos indígenas, mas
na prática, em termos físicos, suas terras continuam ocupadas por
outros. De acordo com o último relatório da Survival, uma organização
de defesa dos direitos indígenas, muitos povos indígenas estão fugindo
de suas terras devido à perseguição das multinacionais madeireiras. O
relatório do Cimi também insiste quanto à educação insuficiente
oferecida aos índios: as aulas são dadas em português, e não em
qualquer dos 170 idiomas indígenas brasileiros. Lula poderia
apresentar como resultado positivo de sua gestão o fato de o censo de
indígenas do IBGE mostra elevação na população de 294 mil para 734
mil, de 1991 a 2006. Mas isso não significa que a população nas áreas
indígenas esteja em alta. "O aumento se concentrou quase completamente
nas cidades do sudeste. Isso quer dizer que cada vez mais pessoas
reconhecem abertamente sua etnia como indígena, quando entrevistas
para o recenseamento" , explica Nilza de Oliveira Pereira, coordenadora
do estudo do IBGE.
Fonte: Clipping da 6ªCCR do MPF.
Governadora Ana Júlia
recebe lideranças Kayapó
Da Redação
Agência Pará
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| Os índios Kayapó pediram à governadora Ana Júlia Carepa melhorias para as áreas da Saúde, Educação e Transporte |
Índios Kayapó da região de Redenção, Sul do Pará, pediram à governadora Ana Júlia Carepa, nesta segunda-feira (02), durante audiência no Palácio dos Despachos, melhorias para as áreas da Saúde, Educação e Transporte.
Eles entregaram à governadora um documento contendo as principais reivindicações das comunidades indígenas. “Vocês não ficarão sem respostas”, garantiu Ana Júlia.
De acordo com os índios, as aldeias kayapó apresentam alto índice de mortalidade infantil, devido à desnutrição que atinge as crianças. Outro problema apontado por eles é a falta de alimentos como caça e peixe. Os kayapó pediram ao governo do Estado melhor atendimento médico, escolas e professores.
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| Outra reivindicação dos índios foi a recuperação das pistas de pouso e estradas em algumas aldeias |
Os indígenas reivindicaram também recuperação das pistas de pouso em algumas aldeias e melhoria das estradas que dão acesso aos centros urbanos.
Eles querem que o governo rediscuta a política indigenista no Estado, incluindo os índios no processo de reformulação do programa Raízes, ligado à Secretaria de Justiça do Pará.
A pauta dos índios foi encaminhada aos secretários convidados para a audiência no Palácio dos Despachos. Estavam presentes na reunião os secretários de Integração Regional, André Farias; Socorro Gomes, da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos; o secretário adjunto de Saúde, Paulo Priante; e o secretário de Educação, Mário Cardoso. “A população indígena é importante para nós”, disse a governadora. “E nós seremos transparentes com vocês”, garantiu ela.
Texto: Evandro Santos - Gabinete da Governadora
Fotos: David Alves
Coordenadoria de Comunicação Social do Governo do EstadoFone: (91) 3202-0911 e 3202-0912, fax: 3202-0913
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O INDÍGENA SIM SE SOLIDARIZA COM O "SILENCIADO" JON SOBRINO E COM TODOS OS CATÓLICOS VÍTIMAS DESSA CÚPULA ROMANA CAQUÉTICA E QUE PERDE CADA VEZ MAIS O DIREITO DE SER CHAMADA DE "CRISTÃ"
03/04/2007
Punição a teólogo da libertação faz sombra à viagem de Bento 16 ao Brasil
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O bispo Casaldáliga adverte Roma: "A verdade, Pilatos, é estar do lado dos pobres"
Juan G. Bedoya
Em Madri
A condenação da Congregação para a Doutrina da Fé - o antigo Santo Ofício da Inquisição - contra o teólogo Jon Sobrino ameaça amargar a primeira viagem de Bento 16 à América Latina, em maio próximo. O papa Ratzinger visitará o Brasil, um dos grandes viveiros do catolicismo, em meio às críticas do clero local. O mítico bispo Dom Pedro de Casaldáliga e o teólogo Leonardo Boff já levantaram suas vozes. Acusam Ratzinger e o cardeal colombiano Alfonso López Trujillo de perseguir os teólogos da libertação há décadas.
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| Dom Pedro Casaldáliga acusa o papa Bento 16 de perseguir os teólogos da libertação |
Era esperada a carta de solidariedade do bispo Pedro de Casaldáliga, o catalão que dirigiu durante décadas a diocese de São Félix do Araguaia, no estado de Mato Grosso. Ele falou, e suas palavras soam como chicotadas contra a Cúria vaticana e o cardeal López Trujillo, o principal inimigo de Sobrino e de todos os teólogos da libertação.
Casaldáliga também emite uma advertência ao papa, dizendo: "A Igreja celebra em Aparecida neste mês de maio a 5ª Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho. E levantaram-se vozes, sinceras e dignas de toda participação, reclamando o que não pode faltar em Aparecida: a opção pelos pobres, o ecumenismo e o macroecumenismo, a vinculação entre fé e política. Mas nem tudo está tranqüilo. Com muito mau augúrio... agora, às vésperas da conferência, eclodiu o processo de nosso querido Jon Sobrino. Muito sintomático, porque um cardeal da Cúria romana já declarou que antes de Aparecida estará liquidada a Teologia da Libertação. Esse ilustre purpurado deverá aceitar, suponho, que depois de Aparecida continuará vivo e ativo o Deus dos pobres, e continuará subversivo o Evangelho da libertação; e que infelizmente a fome, a guerra, a injustiça, a marginalização, a corrupção, a cobiça, continuarão exigindo de nossa Igreja um compromisso real a serviço dos pobres de Deus."
Casaldáliga pergunta ao Vaticano o que é a verdade, quem tem a verdade, qual é a verdadeira religião. "A verdade, Pilatos, é estar do lado dos pobres", diz, lembrando a passagem em que Pôncio Pilatos lava as mãos depois de fazer a mesma pergunta ao fundador cristão. Acrescenta o bispo Casaldáliga: "A religião e a política devem defender essa resposta até as últimas conseqüências. Toda a vida de Jesus é essa mesma resposta. A opção pelos pobres define toda política e toda religião. Antes era 'fora da Igreja não há salvação'; depois, 'fora do mundo não há salvação'. Jon Sobrino nos recorda mais uma vez que 'fora dos pobres não há salvação'. João 23 defendia 'uma Igreja dos pobres, para que fosse a Igreja de todos'. A verdade é que os pobres definem, com sua vida proibida e com sua morte 'antes do tempo', a verdade ou mentira de uma sociedade, de uma Igreja."
O teólogo brasileiro Leonardo Boff também saiu em defesa de Sobrino. Ele disse nesta segunda-feira (2/4): "Escolheram o senhor, que considero o mais profundo teólogo latino-americano, o que melhor articula espiritualidade e teologia, inserção no povo crucificado e reflexão, o que - e digo sinceramente - apresenta em maior grau as virtudes insignes que caracterizam a santidade. Separaram sua obra de sua vida doente e ameaçada, como se pudessem separar o corpo da alma. Só autoridades carnais que perderam todo o sentido do Espírito, como diria São Paulo, poderiam perpetrar tamanha agressão. Bem disse dom Oscar Romero, também assassinado em El Salvador, a quem o senhor tanto assessorou: 'Mata-se a quem perturba'. O senhor participa de certa forma desse destino. Sei que continuará trabalhando e escrevendo para que os crucificados possam ressuscitar".
A decisão do Vaticano de censurar severamente duas das obras de Jon Sobrino - de origem basca, mas residente há 50 anos em El Salvador, dedicado à docência na Universidade Centro-Americana - também provocou protestos de 26 grupos cristãos de Vizcaya.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves Fonte: El País, em Uol Mídia Global, 03.04.2007