21 de Junho de 2009 - 11h26 - Última modificação em 21 de Junho de 2009 - 13h14
Documentário sobre massacre indígena vence festival de cinema ambiental
Luana Lourenço* Enviada Especial
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| Goiás (GO) - O documentário Corumbiara, de Vincent Carelli, foi o vencedor do grande prêmio do 11° Festival Internacional de Cinema Ambiental (Fica), entregue ontem (20) à noite. O filme mostra o massacre de um grupo de índios isolados na Gleba Corumbiara, em Rondônia, na década de 1980.
Carelli coordenava o projeto Vídeo das Aldeias quando soube do massacre, denunciado pelo indigenista Marcelo Santos. O cineasta filmou as evidências, mas foi desacreditado, e a história caiu no esquecimento. Em 1995, Carelli voltou à região, encontrou uma aldeia abandonada e índios isolados, tudo também registrado no documentário.
“Só o cinema poderia resgatar uma história como essa, um crime de genocídio que o país simplesmente ignorou. É uma história emblemática, uma face oculta da história do Brasil”, desabafou Carelli ao receber o Troféu Cora Coralina, mais uma premiação de R$ 50 mil.
Na categoria melhor longa-metragem, o norte-americano Uma Mudança no Mar, de Barbara Ettinger, foi o vencedor. Com imagens captadas em mares do mundo inteiro, o documentário mostra o fenômeno da acidificação dos oceanos, provocada pelo aquecimento global.
O curta-metragem Mar de Dentro, de Paschoal Samora, emocionou a plateia e os jurados com histórias de pescadores e levou o prêmio de R$ 25 mil da categoria.
O documentário Kalunga, de Luiz Elias e Pedro Nabuco, que levou às telas a história do maior território quilombola do país, no norte de Goiás, ganhou o troféu do júri popular.
Veja a lista completa de vencedores do 11° Fica
Maior destaque do festival Corumbiara, de Vincent Carelli, 2009
Melhor longa-metragem Uma Mudança no Mar, de Barbara Ettinger, Estados Unidos, 2009
Melhor curta-metragem Mar de Dentro, de Paschoal Samora, Brasil, 2008
Melhor média-metragem Arrakis, de Andrea di Nardo, Itália, 2008
Melhor série televisiva Por Trás do Mundo, de Jakob Gottschau, Dinamarca , 2008
Prêmio especial do júri Kalunga, de Luiz Elias e Pedro Nabuco, Brasil, 2009
Troféu Imprensa A Árvore da Música, de Otávio Juliano, Brasil, 2009
Melhor produção goiana Ressignificar, de Sara Vitória, Brasil, 2009 A Última Mordida, de Ângelo Lima, Brasil, 2009
Menções honrosas Sem Grandes Problemas, de Yacine Sersar, França, 2008 Bode Rei, Cabra Rainha, de Helena Tassara, Brasil, 2008 Morrendo em Abundância, de Yorgos Avgeropoulos, Grécia, 2008 *A repórter viajou a convite da organização do evento. |
Fonte: http://www.agenciab rasil.gov. br/noticias/ 2009/06/21/ materia.2009- 06-21.5337169983 /view
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CARTA TESTEMUNHO DESDE LIMA - PERU
Prezados todos
Envio para voce dos artigos no guardian Uk e Irlanda que apresentam o problema para o mundo. A gente estava desesperada porque durante varios dias nao teve quase nada de informação nos journais.
Eu peço para voçês disculpar meu pessimo português, eu estou escrevendo muitos emails, me disculpem, não tenho cabeça para corregir minha ortografia. Eu preciso contar para vocês.
Ontem participei na marcha pacifica em Lima com varios milhares de pessoas em apoio aos povos indigenas. Graças a Deus não aconteceu nehum ato de violencia mais ainda assim a gente foi bombardeada com bombas lacrimogenas. Eu estava caminhando junto com religiosas, varias ancianas, quando cairam as bombas, todo mundo corria.
O governo insiste em politizar o problema e dizer que é uma coisa da ezquerda nacionalista. Ontem de tarde o governo suspendeu a 7 congresistas nacionalistas por 120 dias.
A gente queria explicar para voces que o movimento indigena é um movimento autonomo, nao é partidista. Eu achou que o fato que o governo sempre impensa nos nacionalistas é porque eles acham que os indios não podem ter pensamento e ação politica propria. O preconceito com os "salvagens" como Alan Garcai chamou eles repetidamente durante o fim de semana (quando consiguiu totalmente monopolizar a informação) é monstruoso.
A gente queria dizer para voces que eu jamais tenho participado em movimentos politicos, nem sequer em politica indigena. A razao pela qual eu tenho me visto pessoalmente envolvida em disseminar essa informação para voces meus colegas é porque a gente sobe da massacre desde o primeiro momento, porque uma joven belga cooperante chamou a gente pelo telefonne o dia 5 de Junio, sexta feira pasada, as 6:30 da manha para nos dizer que os indigenas estavam sendo abaleados desde um helicoptero. Mais a gente jamais achou que eram balas para matar e voltamos para a cama. Durante o dia eu nem vi a televisao e so soube do que tinha acontescido no caminho de volta para casa, no omnibus, quando a radio estava anunciado 45 mortos indigneas e 8 mortos policiais. Quando cheguei para casa, tambem chegaram no internet as fotos que essa menina belga tinha conseguido tomar e a gente ficou horrorizada e muito asustada. E ainda mais asustada quando a radio começou a mudar a versão e so falar em 3 mortos indigenas e 8, 9 ... 24 mortos policiais brutalmente assasinados pelos "selvagens". Tem sido dias monstruosos.
Como varios de voces sabem, eu estava no Brasil em Salvador de Bahia ate finais de avril. Voltei para o Peru no 2 de Mayo e a greve indigena em Bagua ja tinha começado. A gente estava preocupada mais não fizemos nada. Eu viajei para Leticia, na Colombia, no dia 19 de Mayo e voltei no dia 2 de Junho.
Por esas coincidencias da vida, meus colegas e caros amigos Aliya Ryan e Greg MacLemam me escreveram nesses dias e dizeram que estariam de volta para o Peru no dia 3 e ficaram em casa comigo. Eles tem trabalhado muitos anos no Peru numa ONG chamada shinai, e atualmente Greg trabalha para Amazon Watch. Quando a gente sobe da massacre Greg viajou para Bagua e ele tem dado varias entrevistas internacionais.
Ontem nos journais do Peru, o ministro de relações exteriores Jose Antonio Garcia Belaunde acusou a Greg de desprestigiar o Peru internacionalmente de proposito. A gente tem medo que ele possa ter agora problemas e como a gente esta junto, a gente tambem. Por essas coincidencias da vida, o ministro de relações exteriores é meu primo, filho da irma de meu pai. Eu ficou desesperada de levar um sobre nome que sempre me asocia a pessoas que tem tanto preconceito contra os povos indigenas.
Eu estou contando todo isso para vocês porque a gente não sabe o que vai pasar e precisamos de toda a sua ajuda para exigir a paz e que o governo mude as leis que tem sido impostas e desrespeitam os direitos indigenas.
Eu peço para vocês assinar as petições internet. Luisa Elvira
Fonte: correio eletrônico para listas From:
luisa belaunde <luisaelvira@ yahoo.com>Date: 2009/6/12
Subject: Fw: [Nuti] prezados todos
SE RAÇAS NÃO EXISTEM... - PARTE II
O que está em jogo é que a polícia me reconhece como negro sem me pedir a carteira genética; que os meus colegas, francamente, imediatamente me reconhecem como negro sem um teste de DNA, apesar de cientistas e sua maldita hermenêutica da dúvida sistemática; meus alunos até desconfiam que meu excesso de melanina possa carregar junto outros excessos e, sobretudo muitas deficiências. .. É do peso histórico do efeito agregado de milhares de reconhecimentos cotidianos ligeiros e insustentáveis como esses que estamos falando. Trata-se de falar de raça do prisma sociológico e enquanto efeito histórico de dispositivos objetivos e de disposições subjetivas para repartir e definir o lugar das pessoas tendo como uma das bases de impressão (é preciso lembrar Goffman e a política da primeira impressão na estruturação das interações cotidianas?) : o fenótipo. O � ��lugar de negro”, esse princípio de partição que muitos de nós gost aríamos de banir, se faz evidente porque existe esse substrato material causador de impressões marcantes em disposições subjetivas preparadas para racializar.
O anti-racismo ligeiro não percebe que a inexistência de raças não se faz por um passe de mágica de uma enunciação científica. Não é porque cientistas dizem que raças não existem que elas passam a não existir socialmente. Historicamente a não existência de raças precisa ser praticada, inventada, imaginada em dispositivos institucionais concretos, tornada presença visível de negros na ossatura institucional da nação até que se naturalize tal presença. Se a presença de negros, nos espaços mais caros da nação, não for tão visível a ponto de se tornar natural, estaremos condenados a ter a presença visível da insistência de raça.
É por isso que o problema das modalidades de inserção positiva e visível do negro brasileiro na ossatura institucional da nação em nada reclama os palpites políticos de cientistas da genética. Políticas relacionadas a patrimônio genético merecem bem uma atenção decisiva desses profissionais. Quanto a políticas afirmativas a favor de negros e indígenas, cabe perguntar a cada um dos partícipes da assembléia de quem sua sensibilidade especial lhe faz porta-voz: Dos negros, dos indígenas, dos brancos, de mestiços, da bandeira nacional, da mulata ardente, etc.? Essas entidades de fato não existem nos minúsculos mundos científicos dos geneticistas! Estes deveriam defender políticas de genes como cientistas e palpitar sobre raças do ponto de vista político como qualquer outra voz cidadã. Não deixa de surpreender, nesse surpreendente Brasil, que genetici stas tenham se tornado experts abalizados, consultáveis em políticas públicas referentes a dimensões históricas gigantescas e macroscópicas da nação brasileira. Para tanta pretensão deveriam agregar ao menos duas especialidades!
Esquecem-se por vezes, alguns “cientistas” que a temporalidade das ciências não é a mesma das demais dimensões das mentalidades de nossa época. Que a mentalidade racista vem sendo praticada no Brasil há cinco séculos enquanto que as descobertas da genética sobre a inutilidade da categoria raça é algo bem mais recente, deveria ser trivial! Sobretudo, que a penetração na vida social das descobertas das ciências obedece a ritmos e está sujeita a reinterpretaçõ es imponderáveis, tardias e desconcertantes, também a essa altura deve ser trivial. Mas o problema dessas trivialidades é que são inconseqüentes para esse ligeiro pensamento anti-racista que, como diria o velho e bom hoje inominável, “confunde as coisas da lógica com a lógica das coisas”.
Então cabe repetir: para o bem e para o mal, só uma ínfima parcela dos brasileiros são cientistas. Não apenas muitos poucos detêm os rudimentos dos conhecimentos dos geneticistas, mas, mais ainda, nós os cientistas sociais precisamos lidar não apenas com o que existe de fato para os biólogos, mas também com os efeitos globais das práticas associadas ao que os demais brasileiros acreditam que existe. É disso que estamos falando, do efeito global de raça que muitos brasileiros de muitas maneiras diferentes praticam como “existências”.
E do que alguns “intelectuais” estão falando quando dizem que políticas afirmativas de corte racial são políticas perigosas? Do que mesmo eles têm medo? Qual é o tabu que faz com que não se explicite com a mesma insistência da declaração profética qual é o perigo real e quais os seus contornos? De onde viria o perigo? Quem seria o agressor? Que disposições subjetivas estariam por trás dessa onda devastadora do nosso sublime humanismo não-racista?
Será que eles temem que a nossa generosa cordialidade racial não resista ao teste de uma equiparação da presença de negros e brancos na universidade? Será que esse patrimônio da nação que é o mito da democracia racial não serve sequer para sustentar uma nova disposição moral que exige e desafia que negros estejam tão imediatamente quanto possível convivendo com brancos em número razoável em nosso campus? Será que eles acham que brancos não conseguem conviver com indígenas a não ser na relação pesquisador- objeto? Mas então para que raios serve esse tal de mito da democracia racial que tanto insistem que preservemos? Porque acreditar em cordialidade racial se isso não é de forma alguma assimilável a idéia de enfrentamento solidário de um problema de desigualdade que deixa visível a ausência de negros nos campus? Será que temem que suas quimeras estejam se arruinando ao primeiro teste? É o espectro do incêndio racista na c asa de estudantes da UNB que consome suas veleidades da ausência brasileira de percepção racializada de mundo?
Se fosse apenas isso, precisaríamos nós, tão progressistas, de outras razões para desafiar disposições subjetivas tão hipócritas, mesquinhas e iníquas?
O pior é que talvez eles não concordem comigo sobre o caráter injusto de uma resposta violenta a política de cotas! No fundo, esses intelectuais ultra-humanistas, talvez concordem que esse ódio-racial-branco- nascente estaria justificado pela injustiça da “entrada não meritocrática de negros”! Talvez eles temam o potencial ainda não testado de seus próprios ódios raciais. Eles, tão humanistas!
Se assim for viva a ligeira cordialidade racial! Ela não sobrevive ao menor teste, mas sustenta nossos desencontrados sorrisos de corredor.
Já agora se deveria notar, antes que nos exijam uma comparação culturalmente exacerbada entre os EUA (da gota de sangue) e o Brasil (do branquemento como fórmula de dissolução do racismo), que os diversos grupos racializados e estigmatizados por conta da noção de raça não carregam as mesmas historicidades. As fórmulas de equacionamento de suas dores e memórias de sofrimentos não são transferíveis esquematicamente. Será necessário recordar que, no Brasil, os judeus vêm passando, desde “o início da nação”, por um processo inacabado de branqueamento prenhe de dores? E que passar a ser reconhecido como branco não é igual a se desracializar? E que mesmo se fosse, as diferenças históricas e de substratos ontológicos impedem soluções similares para negros e judeus? Que gerações de negros vêm ensaiando o branqueamento sem que o quadro geral deixe d e ser trágico, porque a branquitude é uma ideologia que carrega intrinsecament e uma noção de pureza que acusa todo o processo de purificação denunciável?
Para nós, os negros, a nova tragédia deriva do fato de que os donos de nossas ontologias passaram a decretar que o racismo que sobre nós insiste na verdade não existe!
Isso torna muito mais trágico o já agora “nosso” racismo, que deixou de ser denunciável. Não se trata de uma operação intelectual nova, mas a escola paulista (Florestan, Bastide, Iani...) que respondeu a demanda da Unesco sobre a harmonia racial brasileira já nos havia aliviado em parte do fardo dessa inexistência.
Se já é difícil conviver com um racismo efetivamente existente, como imaginam o fato da inexistência do racismo que me fere em cada detalhe do cotidiano? Se já era difícil o racismo real, agora, vivemos, nós os negros, o trágico do racismo inexistente como um bando de paranóicos racistas? O problema cosmopolítico é que esse é um bando grande demais para uma mania passível de ser resolvida numa instituição psiquiátrica que já não seja um outro mundo!
José Carlos dos Anjos
Professor do Departamento de Sociologia - UFRGS
SE RAÇAS NÃO EXISTEM, É INEGÁVEL QUE INSISTEM!
Dizem experts que fazendo um cruzamento sistemático entre a pertença racial e os indicadores econômicos de renda, emprego, escolaridade, classe social, idade, situação familial e região ao longo de mais de 70 anos, desde 1929, chega-se à conclusão de que no Brasil, a condição racial constitui um fator de privilégio para brancos e de exclusão e desvantagem para os não-brancos. Do total dos universitários, 97% são brancos, sobre 2% de negros e 1% de descendentes de orientais. Sobre 22 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, 70% deles são negros. Sobre 53 milhões de brasileiros que vivem na pobreza, 63% deles são negros.
O carnaval se aproxima. Nossos sentidos estão adequados a uma partição de fenótipos por espaços sociais. Lemos rostos todos os dias, em cada lugar, como lemos nossos livros e desconfiamos de algumas proposições. Se sairmos de uma sala de aulas da UFRGS numa sexta à noite para irmos a uma quadra de escola de samba, nossa ontologia racial se impõe numa evidência: um fracionamento de espaços sociais por raças como se o território da universidade fosse dos brancos (daí meu mal estar cotidiano) e a quadra pertencesse aos negros (como reclama com sustentável dignidade, o passista). É evidente que são poucos negros em uma sala de aula da UFRGS para muito poucos brancos na escola de samba.
Apenas a CONEM agrega mais de trezentas entidades do movimento negro, Unegro e MNU são outras entidades nacionais com agremiações em quase todos os Estados brasileiros; qualquer um que tenha participado de reuniões iniciais de entidades do Movimento Negro sabe que o rito de iniciação no engajamento militante passa por cerimônias dolorosas de explicitação espontânea de vivências da condição de vítima de racismo; entre os não militantes é crescente o numero de depoimentos em agências como o SOS-Racismo, sem contar as delegacias nada preparadas para receber e muito menos contabilizar as denuncias de racismo. Mas a evidência insiste. Que essa partição espacial e essas denúncias evidenciam um racismo insistente e persistente, não basta a história, não bastam os números, não bastam os depoimentos dos negros, não basta a nossa sensibilidade de qualque r dia desses (passe por lá e saiba do que estamos falando!)?
Que a não existência do racismo possa ser decidida apesar dos depoimentos dos negros (e brancos), apesar dos números das estatísticas, isso surpreende! O que surpreende é a pergunta sobre esse lugar privilegiado de acesso ao real, essa arrogância epistêmica, esse protocolo que vence objetividades (tão descontruíveis) e subjetividades (tão passiveis de serem relativizadas) .
Meu caro divino, mas de onde você está falando cara-pálida? Que lugar inacessível é esse que te permite definir os objetos de meu mundo apesar de mim, os objetos do teu mundo apesar das tuas estatísticas? Como decides sem mim as fronteiras entre mim e ti, quando elas existem e quando não existem? O que te permite partir e repartir o mundo em crenças paranóicas e racistas de um conjunto de movimentos sociais negros e a verdade subjetiva de todo o resto supostamente não racializado? Apenas o olhar arrogante da tua bela ciência? O que te permite definir quando o que o “nativo” diz deve ser levado em conta e, sobretudo quem é o “nativo” que merece teu crédito? Esse lugar de enunciação que, supõe acesso tão privilegiado ao real, que vos permite dizer que não existe o racismo que sobre meu corpo insiste não é o sinal mais flagrante de vossa branquit ude?
- se você disser que possui protocolos científicos muito mais razoáveis do que as dores que me colam à pele e reinventam a cada dia meu confinamento negro, te direi que é exatamente disso que estou falando: que queremos também um lugar sob esse sol que vos permite dizer coisas tão razoáveis (porque suspeito que continue a não ver as mesmas coisas que você vê, porque viemos de historicidades diferentes e nossas ontologias precisam ser negociadas para que encontremos mundos comuns). É essa necessária diplomacia que reclama presenças negras mais numerosas na universidade. E você pode não estar certo, sobre a inexistência do racismo!
Diz displicentemente, um dos maiores antropólogos brasileiros da atualidade que “já há coisas demais no mundo que não existem” para que o antropólogo continue se dando ao luxo do inventário das inexistências! Na disciplina, esse já displicente senso do (mal) estar entre ontologias variáveis não tem sido compartilhado como uma ética do cuidado com as existências, essas delicadas criaturas. Muitos de nossos colegas insistem em arbitrar sobre o que existe e o que não existe, desgraçadamente apesar das dores de “seus nativos”.
Está nos fundamentos dessa disciplina particularmente preparada para lidar com a alteridade que é a antropologia, a suspeita sistemática de que os objetos insistentes no mundo prévio do pesquisador possam não ser tudo o que existe. E que as dores, convicções e cosmologias dos outros também se referem a coisas que de fato existem e que talvez estejam além das ontologias “razoáveis” do pesquisador. Isso faz a felicidade da crítica sistemática ao etnocentrismo e institui a própria noção de alteridade que baliza a disciplina. Tem sido surpreendente a ausência dessa humildade disciplinar na voz de diversos cientistas sociais brasileiros quando lidam com a questão racial. Não seria básico perguntar antes de decretar a inexistência: “o que é o racismo que eles dizem que sofrem?”; “O que significa para eles o racismo?”; “quanto e como consigo tradu zir esse afeto (modo de afetar o mundo e de ser afetado nele)?”
Que o racismo não exista, isso só não surpreende numa ligeireza jurídica que esvazia o conteúdo sociológico de uma relação de des-humanizaçã o na desgraçada formalidade da busca de evidência de interdição/proibiçã o: se você chama o sujeito de negro sujo você o ofendeu, mas não interditou nada, portanto trata-se de ofensa e não de racismo! Que esse negro nunca mais tenha condições subjetivas de voltar ao lugar do insulto, isso não é um problema do jurista! Mas nós? Vamos nos ater a temporalidades tão confinadas, tão decepadas dos encadeamentos históricos mais substantivos?
Se raças de fato não existem, pelo menos no Brasil insistem! Insistem nos números, insistem nos depoimentos negros, assim como está presente nas vossas mais humanistas declarações de intenções a respeito de cotas na universidade.
Raça é algo que a modernidade não para de fazer inexistir, seja através dos atuais processos de controle de fluxos mundiais de populações ou no antigo projeto nazista de extermínio daquilo que seus ideólogos inventaram como a mais radical alteridade do povo alemão, ou através do processo de censura sobre o termo raça e ainda nas múltiplas formulações humanistas condenando o racismo... De todo o modo a gestão da inexistência insistente de raça é um dos problemas cosmopolíticos dos modernos: como repartir as coisas e pessoas que existem de modo que raças não existam convincentemente? É disso que as nossas estatísticas falam: as coisas que existem e que valem a pena (que são capitais, recursos para outras coisas, passaporte para outros caminhos) não estão suficientemente bem repartidas para que raças tanto não existam como não insistam.
Um de nossos problemas modernos é exatamente o da infinitude desse processo de fazer inexistir raças, a demorada implausibilidade de tornar convincente essa inexistência quando todas as demais partições de nossos espaços sociais parecem deixar flagrante a ausência da inexistência de raças.
Porque tanta insistência em demonstrar o que não existe, senão porque raça insiste em ser um problema histórico não passível de ser contornável apenas discursivamente? É da existência histórica dessa insistência, da existência dessas múltiplas políticas para fazer inexistir, que estamos falando. O que esta subjacente a tanta insistência? Um geneticista talvez possa deliberar sobre a existência de raças do ponto de vista biológico. Mas não pode decidir sobre nossas ansiedades para que se pare em falar em raças, sobre como produzir políticas de desracializaçã o das mentalidades e dos dispositivos objetivos de produção de repartições de populações nos espaços sociais. Esse é o nosso problema histórico, social, nem minimamente genético.
(Continua)
REPORTAGEM DA TELESUR SOBRE O MASSACRE EM BAGUA, PERU
COMO AS REDES DE TV NO BRASIL SE LIMITARAM A DAR RÁPIDOS INFORMES SOBRE O OCORRIDO, ESTÁ A QUI UMA OPÇÃO PARA OUVIR LÍDERES DOS PRÓPRIOS INDÍGENAS FALANDO SOBRE O FATO, ALÉM DE VER CENAS MAIS REALISTAS.
ESSE FATO MOSTRA QUE OS GOVERNANTES LATINO-AMERICANOS, APESAR DE VIVERMOS EM UM APARENTE MOMENTO DE RESPEITO À DEMOCRACIA, NÃO TITUBEIAM EM USAR DE EXTREMA VIOLENCIA CONTRA QUALQUER GRUPO OU PESSOA QUE CONTRARIE SUAS POLÍTICAS DE ENTREGAR NOSSAS RIQUEZAS ÀS EMPRESAS CAPITALISTAS NACIONAIS E INTERNACIONAIS. O BRASIL FEZ ASSIM CONTRA OS SEM-TERRA EM ELDORADO DE CARAJÁS, E ESTÁ FAZENDO TODOS OS DIAS, CONTRA OS TUPINAMBÁ E PATAXÓ HÃ-HÃ-HÃE (SUL DA BAHIA) GUARANI (MATO GROSSO DO SUL) E VÁRIOS POVOSNO PAÍS INTEIRO. O PERU É AQUI TAMBÉM.
http://www.youtube.com/watch?v=JXTjqSIdemw&eurl=http%3A%2F%2Fwww%2Eservindi%2Eorg%2F&feature=player_embedded
MASSACRE DE IDÍGENAS NO PERU. ACOMPANHE AS NOTÍCIAS PELO PORTAL WWW.SERVINDI.ORG
Erbol, 5 Junio, 2009.- La vicepresidenta del Foro Permanente para las Cuestiones Indígenas de las Naciones Unidas, Elisa Canqui, calificó de masacre la matanza de 25 indígenas en la región amazónica del norte peruano.
Canqui, en declaraciones a la Agencia de Noticias Indígenas de la Red Erbol, aseveró que “estamos consternados ante esta nueva acción del gobierno de Alan García”.
Recordó que los pasados días la Presidenta del Foro Permanente de las Naciones Unidas para las Cuestiones Indígenas, Victoria Tauli Corpuz, pidió al gobierno peruano respetar los derechos humanos y los derechos de los pueblos indígenas.
La vicepresidenta del Foro Permanente para las Cuestiones Indígenas de las Naciones Unidas aseveró que “el accionar del gobierno de García se traduce en masacre, esperamos que la preocupación internacional se traduzca para que en el Perú se recuperen los derechos humanos”.
Al menos 25 nativos y siete uniformados fallecieron este viernes en el cerro Curva del Diablo, del caserío Siempre Viva, en la provincia cajamarquina de Jaén, tras la incursión de la Policía peruana para desbloquear una carretera, que fue tomada hace algunos días por indígenas amazónicos.
Fonte: http://www.servindi.org/actualidad/12511

Servindi, 5 de junio, 2009.- Alrededor de veinte nativos muertos y cientos de heridos es el trágico saldo del enfrentamiento desatado entre la Dirección Nacional de Operaciones Especiales (DINOES) y los indígenas de Bagua durante la operación de desalojo de la carretera Fernando Belaúnde Terry iniciada a las 5.30 de la mañana. (Imagen: Virgilio Tsajaput)
Las acciones fueron ejecutadas en el tramo de la carretera Fernando Belaunde Terry conocido como “Curva del Diablo” y en la estación 6 del oleoducto Norperuano.
El presidente del Comité de Lucha Provincial de Condorcanqui, Santiago Manuig Valera, falleció tras ser disparado con armas de guerra en la zona de Curva del Diablo, en donde se encuentran concentrados.
El líder indígena Mateo Impi anunció a SERVINDI que los policías no dejan que saquen los cadáveres. “Estamos pidiendo la intervención de la Defensoría (del Pueblo)”, invocó.
Según informó el director de la Policía Nacional del Perú (PNP), José Sánchez, siete policías perdieron la vida en la zona.
“Hemos sido atacados por elementos delincuentes con armas de fuego, que han provocado el fallecimiento de policías”, anunció el general de la zona Luis Murusa.
Cont.: http://www.servindi.org/actualidad/12430
Pesquisadores indígenas se reúnem na UnB
Mais de 700 acadêmicos estarão no 1º Congresso Nacional de Pesquisadores Indígenas, em julho
Leonardo Echeverria - Da Secretaria de Comunicação da UnB
O sociólogo Boaventura de Sousa Santos falou na UnB nesta quinta-feira, 4 de junho, sobre seus estudos acerca da Sociologia das Emergências, em que as culturas nascidas no Hemisfério Sul assumem papel preponderante nas transformações sociais.
Em julho, o campus Darcy Ribeiro também sediará o 1º Congresso Acadêmico de Pesquisadores Indígenas, uma reunião onde representantes dos povos tradicionais do Brasil vão debater novos caminhos para a construção do saber. Conhecimentos tradicionais e ciência acadêmica serão o foco do encontro que vai reunir 700 pesquisadores de origem indígena, entre os dias 14 e 17 de julho.
Sidney Monzila, de 27 anos, é um deles. Bacharel em Direito desde 2007, ele se prepara para a próxima seleção do curso de especialização em Desenvolvimento Sustentável e Indigenismo na UnB. Monzila já trabalha na área, como coordenador do Observatório dos Direitos Indígenas, projeto social que recebe denúncias das comunidades e faz articulações no Congresso Nacional.
O rapaz é da tribo Umutina, uma aldeia de 450 pessoas, no município de Barra do Bugres, em Mato Grosso. Aos 12 anos, foi à cidade terminar o ensino fundamental. Quando a faculdade Unicen de Cuiabá passou a oferecer bolsas de estudo para indígenas, Sidney e seu primo deixaram a tribo e aproveitaram a oportunidade. Hoje, ele já pensa na sua área de mestrado: Direito Ambiental.
Mutaí Matos, 30 anos, estuda Administração na UnB e também pretende usar o que aprendeu para ajudar sua comunidade no município de Coroa Vermelha, na Bahia. “Antes mesmo de pensar no mestrado, eu quero voltar para a aldeia e aplicar meus conhecimentos lá mesmo”, conta o índio pataxó. Mutaí conseguiu sua vaga a UnB por meio do “vestibulíndio”, como é conhecido o Vestibular Indígena.
No Brasil, existem atualmente 420 mil índios vivendo em aldeias, além de outros 300 mil que moram nas cidades. “O maior benefício de termos indígenas cursando uma graduação é que teremos mais ferramentas para conseguirmos a autonomia das comunidades, de forma que eles possam gerir seu próprio patrimônio, seja ele territorial ou cultural”, afirma Vilmar Guarany, secretário-executivo do Centro Indígena de Estudos e Pesquisas (CINEP), ONG que organiza o Congresso de Pesquisadores Indígenas junto com a UnB.
Segundo Vilmar, as tribos nativas do Brasil têm muito a oferecer à academia. Os conhecimentos tradicionais dos índios podem trazer novas idéias nas áreas de Biologia, Biodiversidade, Agronomia, remédios e até cosméticos. No Direito, um dos objetivos é criar uma jurisdição indígena, onde a comunidade possa criar e administrar o seu próprio sistema de leis, de acordo com seu sistema de valores.
O Congresso dos Pesquisadores Indígenas acontece simultaneamente ao 51º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), também na UnB.
Sítio: http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=1788
| As cotas desmentiram as urucubacas - Elio Gaspari |  |  |  |
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Elio Gaspari - FOLHA DE S. PAULO, 03-JUN-2009
Os negros desorganizariam as universidades, como a Abolição destruiria a economia brasileira QUEM ACOMPANHASSE os debates na Câmara dos Deputados em 1884 poderia ouvir a leitura de uma moção de fazendeiros do Rio de Janeiro: "Ninguém no Brasil sustenta a escravidão pela escravidão, mas não há um só brasileiro que não se oponha aos perigos da desorganização do atual sistema de trabalho." Livres os negros, as cidades seriam invadidas por "turbas ignaras", "gente refratária ao trabalho e ávida de ociosidade". A produção seria destruída e a segurança das famílias estaria ameaçada. Veio a Abolição, o Apocalipse ficou para depois e o Brasil melhorou (ou será que alguém duvida?). Passados dez anos do início do debate em torno das ações afirmativas e do recurso às cotas para facilitar o acesso dos negros às universidades públicas brasileiras, felizmente é possível conferir a consistência dos argumentos apresentados contra essa iniciativa. De saída, veio a advertência de que as cotas exacerbariam a questão racial. Essa ameaça vai completar 18 anos e não se registraram casos significativos de exacerbação. Há cerca de 500 mandados de segurança no Judiciário, mas isso nada mais é que a livre disputa pelo direito. Num curso paralelo veio a mandinga do não-vai-pegar. Hoje há em torno de 60 universidades públicas com sistemas de acesso orientados por cotas e nos últimos cinco anos já se diplomaram cerca de 10 mil jovens beneficiados pela iniciativa. Havia outro argumento: sem preparo e sem recursos para se manter, os negros entrariam nas universidades, não conseguiriam acompanhar as aulas, desorganizariam os cursos e acabariam deixando as escolas. Entre 2003 e 2007 a evasão entre os cotistas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro foi de 13%. No universo dos não cotistas, esse índice foi de 17%. Quanto ao aproveitamento, na Uerj, os estudantes que entraram pelas cotas em 2003 conseguiram um desempenho pouco superior aos demais. Na Federal da Bahia, em 2005, os cotistas conseguiram rendimento igual ou melhor que os não cotistas em 32 dos 57 cursos. Em 11 dos 18 cursos de maior concorrência, os cotistas desempenharam- se melhor em 61 % das áreas. De todas as mandingas lançadas contra as cotas, a mais cruel foi a que levantou o perigo da discriminação, pelos colegas, contra os cotistas. Caso de pura transferência de preconceito. Não há notícia de tensões nos campus. Mesmo assim, seria ingenuidade acreditar que os negros não receberam olhares atravessados. Tudo bem, mas entraram para as universidades sustentadas pelo dinheiro público. Tanto Michelle Obama quanto Sonia Sotomayor, uma filha de imigrantes portorriquenhos nomeada para a Suprema Corte, lembram até hoje dos olhares atravessados que receberam ao entrar na Universidade de Princeton. Michelle tratou do assunto em seu trabalho de conclusão do curso. Ela não conseguiu a matrícula por conta de cotas, mas pela prática de ações afirmativas, iniciada em 1964. Logo na universidade onde, em 1939, Radcliffe Heermance, seu poderoso diretor de admissões de 1922 a 1950, disse a um estudante negro admitido acidentalmente que aquela escola não era lugar para ele, pois "um estudante de cor será mais feliz num ambiente com outros de sua raça". Na carta em que escreveu isso, o doutor explicou que nem ele nem a universidade eram racistas. |
Brasil - A luta indígena é contra extinção da humanidade
Brasil de Fato *
Adital - Danilo Dara - da Redação
O historiador indígena Edson Brito, também conhecido como Edson "Kayapó", está a todo momento pensando na humanidade e na natureza como um Todo. Sabe que o tempo corre contra ele e seus parentes. E tem convicção também que esse tempo, "civilizatório científico-capitalista", corre contra todos os humanos. Para ele a atual crise econômica é agravante de um colapso civilizatório muito maior, que tem longas raízes históricas, científicas e filosóficas. Trata-se, portanto, de uma grave crise produzida por um modo de vida que destruiu e destrói muitas outras formas de viver, muitos outros modos de relacionamento entre humanos e natureza.
Verdadeiros viveres cuja luta pela sobrevivência mobiliza por inteiro o índio guerreiro que traz em seu nome, Kayapó. Contra um modo de viver "estúpido e suicida": "veja só São Paulo: quando explico para meus filhos que o Tietê é um rio eles não acreditam: como pode ser se fede tanto? A vida parece não fazer mais sentido, e as pessoas esperam a hora dela acabar, muitas já não pensam mais sequer em ter os seus filhos". Contra esta barbárie, o historiador indígena traça sua resistência, marcada principalmente por muito estudo: "meu objetivo é desmascarar toda essa concepção científica e civilizatória, mano! Só preciso ir juntando os muitos fios, as muitas informações que tenho". E é esta urgência que vive cotidianamente seja em São Paulo (onde hoje faz seu doutorado em "Educação: história, política e sociedade" na PUC-SP), seja no Oiapoque (onde nasceu e também segue atuando).
O mote inicial de nossa conversa foi a recente votação no Supremo Tribunal Federal sobre a demarcação contínua do Território Indígena Raposa Serra do Sol (TI-RSS), na região de Roraima, extremo norte do país. Porém, desde o início Edson fez questão de ressaltar implicações muito mais profundas a partir desta questão aparentemente só indígena: "nós indígenas passamos milênios na Amazônia e conseguimos conhecê-la profundamente, respeitá-la e preservá-la, enquanto a civilização científica capitalista, além de massacrar brutalmente nosso povo, em poucos anos a tem desmatado e destruído progressivamente, como nunca antes". Para ele há muito tempo a questão indígena deixou de ser uma luta específica dos povos originários pelos seus direitos constitucionais para se tornar uma questão de todos os homens e mulheres do planeta. Prova isso com muitos dados e exemplos.
Em sua opinião, ou a "civilização científica capitalista tem pela primeira vez na história a humildade de assumir seus limites e sua ignorância" sobre uma série de complexas questões - entre elas, a preservação da Amazônia, e a própria relação entre humanos e natureza -, ou estaremos todos fadados à extinção. Nesse sentido é enfático: "o nó da questão, que a sociedade brasileira e mundial precisam entender, é que as terras amazônicas sob o cuidado dos indígenas é uma garantia para toda humanidade. Ao retirar a autonomia dos indígenas sobre suas terras estão assinando a sentença de morte da humanidade". O alerta aqui tem em vista as 19 condicionantes propostas pelo Ministro Menezes Direito e aprovadas junto com a demarcação contínua da RSS, que teoricamente se estenderia a outras terras já demarcadas ou por demarcar. Na opinião de Edson: "um verdadeiro golpe, inconstitucional, contra a autonomia indígena e de lesa-humanidade".
Continua: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=38462 Em 01.05.2009
Professor da UFRGS é condenado por racismo
Docente foi acusado de usar termos pejorativos em aula
CÍNTIA ACAYABA
DA AGÊNCIA FOLHA
Um professor da faculdade de agronomia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) foi condenado pelo TRF (Tribunal Regional Federal) da 4ª Região a pagar multa por ato de racismo em sala de aula em 2000. Cabe recurso.
A multa corresponde ao salário de um mês do professor José Antônio Costa, incluindo vantagens e adicionais que recebia na época. A Justiça Federal não cita o valor na decisão.
A denúncia do Ministério Público afirma que o professor disse, no primeiro dia de aula da disciplina "Leguminosas de Grãos Alimentícios", em março de 2000, que "os negrinhos da favela só tinham os dentes brancos porque a água que bebiam possuía flúor" e que "soja é que nem negro, uma vez que nasce é difícil de matar". Na classe, havia um aluno negro.
Na época, foi aberta uma sindicância na faculdade. A apuração concluiu que não havia conotação racista nas falas do professor, que ele tinha "intuito de criar um ambiente mais descontraído no primeiro dia de aula" e que fez uso de expressões informais sobre a raça negra utilizadas no meio rural.
O Ministério Público, então, entrou com ação civil na 6ª Vara Federal de Porto Alegre, que a considerou improcedente. Depois, recorreu ao TRF alegando que "houve ação discriminatória e racista e que teria provocado constrangimento e indignação em todos os presentes e principalmente no único aluno negro presente".
A defesa de Costa afirmou, entre outras coisas, que ele disse as frases sem intenção pejorativa e que utilizou ditado comum na zona rural, principalmente entre agricultores de origem italiana, inclusive com conteúdo positivo, relativo ao vigor da etnia negra.
O juiz federal Roger Rios, da 3ª turma do TRF da 4ª região, relator do processo, considerou que "não é crível que indivíduo com o grau de formação intelectual [mestrado e doutorado] [...] não perceba o explícito e textual conteúdo racista na expressão utilizada -tanto que ao final da aula preocupou-se em manifestar suas desculpas".
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0105200919.htm em 01.05.2009
Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

É a doença originada do agronegócio internacional
Eu sempre insisto aqui neste blog Diário Gauche que o nome que se dá a coisas, objetos, projetos, episódios e até a doenças é muito importante.
Vejam o caso dessa epidemia mundial de gripe viral. Estão chamando-a – de forma imprópria – de gripe suína. Nada mais ideológico. Nada mais acobertador da verdade.
O vírus dessa gripe se originou da combinação de múltiplos pedaços de ADN humanos, aviários e suínos. O resultado é um vírus oportunista que acomete animais imunodeprimidos, preferencialmente porcos criados comercialmente em situações inadequadas, não-naturais, intensivas, massivas, fruto de cruzamentos clonados e que se alimentam de rações de origem transgênica, vítimas de cargas extraordinárias de antibióticos, drogas do crescimento e bombas químicas visando a precocidade e o anabolismo animal.
Especulações científicas indicam que o vírus dessa gripe teve origem nas Granjas Carroll, no Estado mexicano de Vera Cruz. A granja de suínos pertence ao poderoso grupo norte-americano Smithfield Foods, cuja sede mundial fica no Estado de Virgínia (EUA).
A Smithfield Foods detém as marcas de alimentos industriais como Butterball, Farmland, John Morrell, Armour (que já teve frigorífico no RS e na Argentina), e Patrick Cudahy. Trata-se da maior empresa de clonagem e criação de suínos do mundo, com filiais em toda a América do Norte, na Europa e China.
Deste jeito, pode-se ver que não é possível continuar chamando a gripe de “suína”, pois trata-se de um vírus oportunista que apenas valeu-se de condições biológicas ótimas – propiciadas pela grande indústria de fármacos, de engenharia biogenética, dos oligopólios de alimentos e seus satélites de grãos e sementes. Todos esses setores contribuiram com uma parcela para criar essa pandemia mundial de gripe viral.
O nome da gripe, portanto, não é “suína”. O nome da gripe é: “gripe do agronegócio internacional” – que precisa responder judicialmente o quanto antes – urgentemente – pela sua ganância e irresponsabilidade com a saúde pública mundial.
DE RACISMO E DE NOVAS TERRITORIALIDADES NO SISTEMA MUNDO
De racismo e de novas territorialidades no sistema mundo
O racismo é um dos temas mais entranhados na sociedade moderna e, por isso, um dos mais difíceis de serem tratados com um mínimo de civilidade.
24/04/2009Carlos Walter Porto Gonçalves
Em 2001, a ONU realizou em Durban, África do Sul, a Conferência Mundial Contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. O local não podia ser mais apropriado, pois aquele país acabava de por fim ao nefando regime de apartheid que lhe havia sido imposto pelos colonizadores. A conferência, infelizmente, terminou com cadeiras voando e sem que os participantes tenham conseguido dar cabo da sua agenda de trabalho. À época, preocupava aos delegados europeus a possibilidade de que fosse aprovada uma resolução que reconhecia a escravidão como crime de lesa-humanidade e, ainda, que pudesse haver alguma condenação a Israel por crime de racismo contra o povo palestino. Em 2009, nos vemos em Bruxelas novamente diante do triste espetáculo de uma reunião da ONU sobre racismo não conseguir dar cabo da sua agenda de debates. Embora a mídia empresarial tenha enfatizado o discurso do Presidente do Irã como tendo sido o responsável pelos desentendimentos, é bom registrar que mesmo antes de qualquer pronunciamento já estava em curso um boicote à conferência protagonizado pelos Estados Unidos, Itália, Alemanha, Holanda, Polônia, Austrália e Nova Zelândia que não enviaram sequer seus embaixadores a Bruxelas.
Independentemente das razões imediatas alegadas por esses representantes de que recusariam o reconhecimento do sionismo como racismo, o que estaria sendo proposto pelo Presidente do Irã, é significativo que seja exatamente sobre o tema do racismo que os embaixadores, especialistas em evitar a guerra, não consigam sequer conversar quando não evitar a pancadaria aberta, como aconteceu em Durban.
O racismo é um dos temas mais entranhados na sociedade moderna e, por isso, um dos mais difíceis de serem tratados com um mínimo de civilidade. As reuniões da ONU comprovam. O racismo está na constituição do sistema mundo desde seus primórdios e continua a constituí-lo ainda hoje. Na América Latina/Abya Yala, no Caribe e na África, não há como deixar de reconhecer o recobrimento entre o processo de formação das classes sociais e a questão étnico-racial. Dois dos mais importantes sociólogos latino-americanos, o peruano Aníbal Quijano e o brasileiro Florestan Fernandes, insistiram nessa sobreposição. Faz parte da colonialidade que constitui a modernidade sendo seu lado até recentemente silenciado. Desde 1492 que a colonização do novo (para os europeus) continente se fez contra os povos originários de Abya Yala, nome com que o movimento desses povos vem designando o continente afirmado como América pela elite criolla, e por meio da escravização de povos africanos nas monoculturas com fins mercantis. Foi nesse momento que os europeus se descobriram como brancos e instauraram um dos mais perversos regimes sociais que a humanidade conheceu, promovendo a morte generalizada de milhões de autóctones tanto na África, como no Caribe e na América/Abya Yala para concentrar riqueza nas mãos de poucos, sobretudo na Europa. A Europa só passou a ter a centralidade geopolítica, geocultural e geoeconômica que hoje possui a partir desse regime social colonial-escravista. Não esqueçamos que até 1492 tomar o rumo certo era se orientar, enfim, ir para o Oriente. Condenar o passado mantendo intactas as posições atuais que por meio dele foram edificadas é contribuir para a manutenção do problema e não para sua solução. È fato que não podemos mudar o passado, como se costuma dizer, mas o que não podemos olvidar é que as desiguais posições de poder atuais foram construídas por essa história que, assim, nos habita na sua contradição.
Foram os próprios europeus que conformaram o holocausto cometendo com requintes técnicos e científicos a morte de milhões de judeus e de ciganos, entre outros povos, nos seus campos de concentração. O horror vivido pelos povos originários de Abya Yala/América e dos negros obrigados a trabalhar sob o látego do feitor depois de viajar nos navios do horror enriqueceram uma burguesia que só quer olhar prá frente porque não pode olhar o passado que lhe constituiu e que se reproduz enquanto pilhagem dos recursos naturais ainda hoje pagando salários de fome, sobretudo aos não-brancos.
O último período da globalização iniciada em 1492, o técnico-científico-informacional (Milton Santos) e neoliberal, ao contrário da homogeneização que de certa forma era seu ideal-tipo tem que aceitar a diversidade de culturas de fato como resultado da resistência dos diferentes à nova colonização, agora em nome do desenvolvimento e do mercado. As migrações acabaram colorindo as periferias de Londres, de Paris, Amsterdã e de Berlin e, assim, aproximaram os diferentes lá mesmo no centro do poder mundial, fenômeno nada novo para quem viveu no lado colonial do sistema mundo moderno-colonial. Há uma resistência xenófoba à transculturalidade e à transterritorialidade em curso no mundo que explicita uma questão de fundo do sistema mundo moderno-colonial e que as reuniões da ONU expressam esse mal-estar. Não será com muros que se vai impedir a invenção de novas territorialidades de que o mundo está grávido. Os equatorianos acusados de indocumentados na Espanha brandiram a carta de Cristóvão Colombo como seu documento de identidade para que pudessem continuar vivendo de seu trabalho na Espanha e, ao mesmo tempo, contribuir para o sustento de suas famílias no Equador. Essa Espanha, que hoje quer expulsá-los, é a mesma que se enriqueceu com exploração das minas de ouro submetendo os quéchuas e os aymaras no seu próprio Tawantinsuyu.
Ainda recentemente, em 16 de Março de 2003, houve uma reunião de cúpula nas Ilhas Açores onde participaram os Estados Unidos, a Inglaterra, a Espanha e Portugal quando se decidiu, à revelia da ONU, pela invasão do Iraque. Tanto o local como seus participantes são emblemáticos para entendermos o significado do que está implicado no sistema mundo moderno-colonial: os Açores são o arquipélago que se tomou como referência para demarcar o Meridiano de Tordesilhas justo no momento em que o Atlântico Norte passava a se constituir no centro geopolítico do sistema mundo moderno-colonial e, ali estavam na reunião de 2003 os que hegemonizaram a primeira moderno-colonialidade – Portugal e Espanha – e, ainda, os que passaram a comandar a segunda moderno-colonialidade – a Inglaterra – e seu desdobramento hegemônico atual, os Estados Unidos. Nunca a geografia e a história foram tão emblemáticas do padrão de poder mundial como nesse encontro dos Açores.
Enfim, vivemos um momento de bifurcação histórica, diria Yllia Prigogine. Há um processo de transformação em que a longa duração, de que tanto nos alertara Fernand Braudel, está se condensando na curta duração pela ação de velhos/atuais protagonistas agora visibilizados no novo quadro histórico que demanda por radicalização democrática. Que a dor dos povos originários de Abya Yala/América, dos negros desterritorializados e escravizados, dos judeus e ciganos confinados em campos de concentração e dos palestinos, hoje massacrados por Israel, nos inspirem na conformação de novas instituições, onde a igualdade e a diferença se combinem no sentido da emancipação das condições de exploração/opressão do sistema mundo moderno-colonial que ainda nos constitui.
*Doutor em Geografia pela UFRJ. Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFF. Pesquisador do Grupo Hegemonia e Emancipações de Clacso. Ganhador do Prêmio Casa de las Américas 2008 de Literatura Brasileira
Fonte: http://www3.brasildefato.com.br/v01/agencia/de-racismo-e-de-novas-territorialidades-no-sistema-mundo em 29.04.2009
27/04/2009 - 12h04 Sabedoria indígena contra a mudança climática Por Stephen Leahy* |
Anchorage, 27 de abril (Terramérica) - Enquanto os países industrializados emitem crescentes volumes de gases causadores do efeito estufa, os povos originários precisam adaptar-se a um clima cada vez mais perigoso para sobreviver. Ao longo da história, as comunidades indígenas desenvolveram um grande arsenal de práticas que hoje poderiam servir para lidar com a mudança climática. “Por que não dar um dia de descanso aos automóveis e aos aviões? E depois dois dias de descanso. Isso reduziria a poluição”, sugeriu Carrie Dann, uma anciã da etnia norte-americana dos shoshones ocidentais.
Dann, ganhadora do Ritght Livelihood Award 1993 – conhecido como o Prêmio Nobel Alternativo – por seu ativismo na proteção de suas terras ancestrais, fez a proposta perante cerca de 400 delegados reunidos entre os dias 20 e 24 deste mês na Cúpula Mundial dos Povos Indígenas sobre Mudança Climática, realizada em Anchorage, no Estado norte-americano do Alasca. Dann afirmou que é preciso curar a “febre” da Mãe Natureza. “Meu território está ficando muito quente e há muitos incêndios nas pradarias”, afirmou.
Na Austrália, para prevenir incêndios semelhantes, que nos últimos anos devastaram grandes áreas e deixaram centenas de mortos, os aborígines de Western Arnhem Land, no Território do Norte, praticam queimadas tradicionais controladas. Ao impedir esses enormes incêndios também são reduzidas as emissões de gases de efeito estufa. E, pela primeira vez no mundo, esses aborígines venderam créditos de carbono à indústria, por US$ 17 milhões, gerando uma renda significativa para suas comunidades, segundo um informe apresentado em Anchorage.
Seguindo a tradição, depois da temporada chuvosa, os indígenas australianos fazem queimadas controladas para criar barreiras que depois, na estação seca, agem como corta-fogo dos incêndios florestais. Os incêndios controlados geram uma grande quantidade das emissões de carbono da Austrália. Nos últimos anos, pouquíssimos aborígines puderam continuar vivendo na terra ou fazendo queimadas controladas. Agora, poderiam assumir um novo papel no combate à mudança climática.
“O mundo tem de prestar mais atenção às opiniões das comunidades indígenas e à sabedoria do conhecimento ancestral”, afirmou Sam Johnston, da Universidade das Nações Unidas, copatrocinadora da Cúpula. Na Ásia, os povos originários desenvolveram diferentes variedades agrícolas e utilizam distintos modelos de semeadura, disse na conferência Victoria Tauli-Corpuz. presidente do Fórum Permanente para as Questões Indígenas da Organização das Nações Unidas. Também participam da agrossilvicultura sustentável, da geração energética com biomassa e de pequenas centrais hidrelétricas.
Na ilha de Bali, na Indonésia, os indígenas reabilitam arrecifes e protegem mangues. Nas Filipinas, a população autóctone traça mapas das águas de suas terras e desenvolve um plano de manejo integrado. “Muitos fazem estas coisas por conta própria, sem nenhum apoio”, destacou Tauli-Corpuz. Em Honduras, sob a freqüente ação de furacões, a etnia quezungal desenvolveu um método agrícola para plantar sob as árvores, o que permite que as raízes se prendam melhor ao solo e também reduz a perda de cultivos em desastres naturais.
Na Guiana, os povos indígenas adotaram um estilo de vida nômade, mudando para regiões com mais florestas na estação seca, e agora plantam mandioca (Manihot esculenta), seu principal alimento, em planícies aluviais que antes eram consideradas muito úmidas para cultivos. Em Belize, os agricultores estão retomando práticas tradicionais e se mudando para terrenos mais elevados, informaram outros delegados.
Na África, os pigmeus baka, do sudeste de Camarões, e os bambendzele, da República do Congo, desenvolveram novos métodos de caça e pesca, adaptando-se a uma realidade com menos chuvas e mais incêndios florestais. Embora os povos originários tenham uma grande capacidade de adequação e existam tratados e leis internacionais que garantem seu direito ao alimento e às suas formas de vida tradicionais, a mudança climática ameaça tudo isto, disse Andréa Carmen, da etnia yaqui, dos Estados Unidos.
Quando os chefes das tribos da província canadense de Alberta declararam que era preciso acabar com a exploração das areias petrolíferas, foram ignorados, ressaltou Carmen, que é diretora-executiva do Conselho Internacional de Tratados Indígenas, uma organização de defesa dos direitos indígenas. A extração de petróleo das areias alcatroadas é a principal razão pela qual o Canadá aumentou em 4% suas emissões que contribuem com a mudança climática, entre 2006 e 2007, estando 33,8% acima do compromisso de redução de emissões que assumiu por ser parte do Protocolo de Kyoto, em vigor desde 2005.
Entretanto, os povos indígenas também observam com cautela ações de governos e indústrias em resposta à mudança climática, como a construção de fazendas eólicas e usinas de biocombustíveis, normalmente em terras ou lugares onde os afetam, prejudicando seu sustento, explicou Gunn-Britt Retter, do Conselho Saami, da Finlândia. “Contamos com os conhecimentos tradicionais para suportar estas mudanças climáticas, e precisamos usá-los para ajudar outras culturas” a fazerem o mesmo, afirmou. Os povos indígenas “devem participar plena e efetivamente dos planos nacionais e internacionais para que nossas culturas sobrevivam a estas mudanças”, acrescentou.
Já se passaram 17 anos desde a primeira reunião da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, destacou Sheila Watt-Cloutier, ex-presidente do Conselho Circumpolar Inuit. “Precisamos agir rapidamente. Esta é a última oportunidade de assumir o controle”, disse aos delegados em videoconferência, de sua casa em Iqaluit, na província canadense de Nunavut. “O mundo necessita da sabedoria de nossas culturas”, concluiu.
* O autor é correspondente da IPS. Sua viagem ao Alasca foi financiada pela Universidade das Nações Unidas e pelo Project Word, uma organização não-governamental com sede nos Estados Unidos, que incentiva a cobertura jornalística dos assuntos indígenas.
Crédito da imagem: Gentileza da entrevistada
Legenda: Carrie Dann, líder indígena da etnia norte-americana dos shoshones ocidentais.
Fonte: http://envolverde. ig.com.br/ materia.php? cod=58391&edt=1